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Comédia, italiana…e requentada

Luiz Zanin Oricchio

19 de janeiro de 2010 | 16h04

É raro que uma comédia italiana chegue ao Brasil e, por isso, a entrada em cartaz de Ah…O Amor!, de Fausto Brizzi, pode ser considerada, em tese, uma boa notícia. Em aparência os distribuidores acreditam que o espectador tenha saudade desse gênero de filme, que fez tanto sucesso no mundo todo entre as décadas de 1950 e 1970. Diretores como Mario Monicelli e Dino Risi eram grifes, ao lado de atores como Totò, Vittorio Gassman, Alberto Sordi e Ugo Tognazzi.

Tanto apostam no sucesso que resolveram lançar este filme em cópias com som original e outras dubladas em português para o público que não gosta de ler legendas. Quem faz essa opção perde a musicalidade do idioma original que, no caso das comédias italianas, parece ainda mais fundamental. A possibilidade de achar alguma graça em Ah… O Amor! depende bastante da variedade de sotaques dos personagens, o que se perde na dublagem. Um deles, por exemplo, é um meridional que tenta se separar de uma loiraça. Ambos estão diante do juiz vivido pelo grande ator Silvio Orlandi e argumentam que não desejam a guarda dos filhos. São crianças muito chatas, concorda o casal em litígio. Essa situação meio surrealista faz o filme prometer. Na verdade, promete mais do que pode cumprir.

As histórias, distribuídas por vários personagens, envolvem sempre casais, em vias de união ou separação. Seu tema é a fragilidade dos laços modernos em face de uma instituição tão antiga quanto problemática como o casamento. No caso descrito, o juiz Luca (Silvio Orlandi) concilia, mas tem também seus próprios problemas conjugais. Em outro extremo, uma noiva busca igreja para casar e depara-se com o padre do local – justamente o homem que a deixou alegando vocação religiosa. E assim por diante.

Não faltam tramas interessantes nem boas gags. Não faltam também bons atores e atrizes. Além de Orlandi, que é um ícone na Itália, aparecem no elenco os descendentes de nomes que fizeram a grandeza da commedia all”italiana dos anos de ouro: Alessandro Gassman (filho de Vittorio) e Gianmarco Tognazzi (filho de Ugo). Enfim, o conjunto é que não funciona lá muito bem. E então começamos a ver a diferença que existe entre a antiga comédia italiana e a contemporânea, que reflete necessariamente toda a má fase do cinema que hoje se pratica na Itália. As venturas e desventuras conjugais, em separado, têm lá a graça, embora as histórias apresentem desníveis entre si. Somadas, não se completam e nem se comentam entre si, como seria de se esperar.

Há também um tom rançoso no filme, como se o gênero não tivesse conseguido se atualizar e tentasse reeditar no presente o que teve com sobra no passado. Maquia-se com alguma modernidade, preserva clichês mas o que se vê é mais do mesmo, do que já foi feito, com maior agudeza e espírito crítico, em outros tempos. Sente-se saudades de Monicelli e Risi, que sabiam rir da sua época com espírito corrosivo e livre. Falta essa alma leve e inspirada ao apenas mediano Ah… O Amor!

(Caderno 2, 19/1/10)

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