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Combinando tudo com o adversário

Luiz Zanin Oricchio

02 de dezembro de 2008 | 14h29

Dizem que na véspera do jogo entre Brasil e União Soviética, na Copa de 1958, o técnico Vicente Feola levou Garrincha para o canto da concentração e explicou o que ele deveria fazer em campo. “Mané, você pega a bola e dribla o primeiro beque; quando chegar o segundo, você dribla também. Vai até a linha de fundo e cruza forte para trás, para o Vavá marcar”. Malicioso, Garrincha respondeu: “Tudo bem, seu Feola, mas o senhor já combinou com os russos?”

Pois é, o São Paulo aprontou direitinho a festa do hexa. Só faltou combinar com o Fluminense. Como o adversário não quis colaborar, o Tricolor terá de, no mínimo, empatar com o Goiás na última rodada para garantir o título que já contava no papo. Claro que todo mundo vai dizer que não havia clima de já ganhou, etc. Mas a frustração da torcida que foi ao Morumbi fala por si só. Não fosse assim, a galera partilharia o sentimento otimista de Muricy, que, oficialmente, ao invés de lamentar o empate, comemorou o ponto ganho: “Agora só nos falta mais um”. Está errado? Não. Está certíssimo.

Mas não era o que esperavam. Contava-se com a festa em pleno Morumbi, a volta olímpica, o “Parabéns a Você” pelo aniversário do técnico, etc. Não deu. Esqueceram-se de que, por coincidência, também Celso Roth, técnico do Grêmio, faz aniversário dia 30 de novembro – e foi ele, e não Muricy, quem ganhou o presente. Pidão, Roth ainda chiou. Disse que esperava mais do Fluminense. Queria a vitória. Parecia um daqueles meninos mimados que ganham a bicicleta e reclamam porque o trenzinho elétrico não veio.

Ah, o futebol…Quantas lições nos dá, e nós não aprendemos nada, ou quase nada. Julgamos que quando é pequena a probabilidade de alguma coisa vir a acontecer, ela não vai acontecer de modo nenhum. E assim construímos uma certeza, e, dessa certeza, uma grande expectativa, que se transforma tão facilmente em frustração. Eu mesmo achei que a fatura já estivesse liquidada, embora, na coluna passada, tivesse citado o filósofo popular Abelardo Barbosa, vulgo Chacrinha. “Só acaba quando termina”, dizia o sábio personagem sobre seu programa de TV, frase que generalizei para o futebol e outras circunstâncias da vida.

Deveríamos ter mais cautela, afinal. Por que dar de barato que o São Paulo iria passar por cima do Fluminense, que teve péssimo ano, mas não é mau time? Pelo contrário. Precisava apenas de um pouco de equilíbrio e este veio com o competente Renê Simões. Domingo o Fluminense jogou muita bola. Não foi o São Paulo que jogou mal – ele apenas encontrou um adversário sólido e capaz de igualar-se a ele. E isso o surpreendeu, quando não deveria haver surpresa, pois o Flu já vinha jogando bem há algum tempo.

Dito isso, é claro que as chances do São Paulo continuam bem melhores que as do Grêmio. Por vários motivos, sendo um o principal: o tricolor paulista depende apenas de suas próprias forças para ganhar mais um campeonato. Vitória ou empate diante do Goiás, no Bezerrão, e pronto. Taça na mão. Já os gaúchos precisam fazer a lição de casa e derrotar o Atlético Mineiro no Olímpico. Além disso, devem secar o São Paulo. Sempre é mais complicado depender dos outros, em especial quando esse outro é o seu principal adversário.

Lições de Garrincha. Que, aliás, naquela ocasião deitou e rolou em cima dos russos. Como se tivesse combinado tudo com eles.

(Coluna Boleiros, 2/12/08)

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