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Com dez é melhor?

Luiz Zanin Oricchio

21 de outubro de 2008 | 12h05

Se não me engano, é Sócrates quem defende a idéia de times com apenas dez jogadores ao invés de onze de cada lado. Goleiro e mais nove. A razão alegada é que, com o futebol mais físico e de maior ocupação tática do terreno, não haveria mais espaço para o jogo fluir. Com um jogador a menos em cada uma das equipes, recuperaríamos o terreno perdido e o jogo tenderia a se tornar mais aberto, bonito e com mais gols.

De certa forma, se adotarmos essa tese, o clássico entre Palmeiras e São Paulo teria servido como laboratório para as elucubrações teóricas do Doutor, que encantou a todos nós quando jogava pelo Corinthians e pela seleção brasileira. Sócrates era um mestre na ocupação de espaços e sua jogada mais característica, o passe de calcanhar, era exemplo de como um boleiro fora de série reinventa a geografia e mesmo a sua postura física dentro das quatro linhas. Alto, e com o pé relativamente pequeno para sua estatura, parecia mais fácil, para ele, tocar de calcanhar do que virar-se para efetuar a jogada. Ganhava em tempo, precisão e ainda surpreendia o adversário. Além de tudo, havia um bônus, não negligenciável, que era o efeito de beleza causado pela jogada.

Voltando ao clássico. A impressão é que a expulsão de um atleta de cada lado (Borges e Diego Souza), logo aos dez minutos do primeiro tempo, estaria na origem de um jogo eletrizante, para muitos o melhor do ano até agora. E, de fato, quem assistia à partida via um futebol diferente do habitual. Ataques lá e cá, muitos chutes na direção da meta, dois gols marcados para cada lado. Fora os lances polêmicos, como a cabeçada de Alex Mineiro que bateu no travessão, pingou no gol (dentro ou fora?) e saiu. Quem foi ao Parque Antártica, ou acompanhou pela TV, teve direito a tudo, ou quase tudo que uma partida de futebol pode proporcionar: drama, tensão, euforia, apreensão, desafogo.

Isso aconteceu porque os times atuaram quase todo o tempo com um jogador a menos? Acho que não. O espaço maior pode até ter ajudado mas eu, que citei Sócrates lá em cima, peço licença para recorrer a outro depoimento, este do maior de todos. Ele mesmo em quem você está pensando. Uma vez perguntei a Pelé se os jogadores de outros tempos teriam dificuldade de atuar com menos espaços, como acontece agora. Ele não pensou um segundo para responder: “O craque sempre encontra o seu espaço.” E ponto final.

Talvez Pelé pensasse em si mesmo ao responder, o que não seria justo para com os outros. Mas o fato é que nunca vi craques de verdade serem completamente anulados em campo. Garrincha, Maradona, Zidane, gente desse nível sempre encontrou um jeito de jogar, mesmo sob marcação severa e com espaços vigiados e reduzidos. O problema não é o espaço; importa é o que você consegue fazer com o espaço que tem.

Dessa forma, acho que o jogo de domingo teria sido maravilhoso com dez, nove ou onze jogadores para cada lado. Talvez fosse ainda melhor com Borges e Diego Souza em campo até o final, como saber? O que havia no Parque Antártica não era propriamente um espaço físico maior para se jogar, mas uma grande disposição para vencer. Ninguém queria perder e essa adrenalina acumulada pôs fogo na partida, no bom sentido do termo. Quando o jogador não está nem aí, pode ter o espaço que for que o jogo não flui – basta ver o que acontece nas tediosas partidas da seleção brasileira. Já quando entra com a faca nos dentes, tudo muda de figura. Disposição e vontade de vencer podem não substituir a técnica. Mas fazem uma diferença…

(Coluna Boleiros, 21/10/08)

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