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Coisas velhas

Luiz Zanin Oricchio

06 de outubro de 2009 | 23h23

Tive de fazer uma arrumação geral na casa. Ou talvez seja melhor dizer: uma desarrumação geral. O motivo: cupins que aqui fixaram residência há alguns anos, foram crescendo e se multiplicando como manda o Senhor, a ponto de quase derrubarem a casa. Enfim, tive de chamar um especialista que cobrou uma fortuna para expulsar os intrusos. Além disso, para fazer o serviço foi preciso desocupar armários, guarda-roupas, estantes e outros nichos. Resultado primário: uma baderna total, que vai requerer outra vida para ser consertada. Resultado secundário: começaram a aparecer coisas misteriosas.

Duas delas, em particular.

Uma velha carteira. Abri. Havia lá um dinheiro, coisa antiga, notas de cem mil cruzeiros, 50 mil cruzeiros. Novinhas. Dobradinhas. Estavam lá, provavelmente guardadas para realizar uma compra. Quanto valeria aquilo? Não sei. Nem sei de que data eram. Do tempo da hiperinflação do Sarney? Daria para comprar uma roupa boa, ou apenas uma camisa mais ou menos? Seria suficiente para um livro, ou um fim de semana no Rio? Não saberei. A não ser que consulte um economista. Mesmo assim, a aura de mistério permanece. Talvez eu prefire que assim seja.

Depois encontrei uma pasta de papelão no meio dos documentos. O que seria? Abri. Uma maçaroca de papeis velhos, a maior parte datilografada, o resto escrito a mão. Esboços, planos, rascunhos e alguns capítulos inteiros de um romance que eu tentei escrever e depois gorou, como se diz. Desandou, como desandam algumas maioneses. E lá está, encerrado naquela pasta, que eu talvez um dia jogue fora. Um belo (belo?) romance rudimentar sobre a época da ditadura. Lendo aquilo me lembrei de quando comecei a escrevê-lo. Era uma época particularmente difícil, em que eu havia concluído uma fase da vida e não sabia o que seria a seguinte. Se é que existiria a seguinte. Como tinha muito tempo livre, resolvi começar a escrever. Nem havia computador então. Peguei a hoje obsoleta Olivetti e fui batendo nas teclas em meu escritório. Palavra atrás de palavra, as frases fluiam e iam me ajudando a preencher o vazio. A me aguentar. E, com isso, com essa terapia literária autoimposta, toda uma parte da minha vida foi lançada naquele papel sob a forma transfigurada da ficção.

Um grande prazer, como descobriu tardiamente Paulo Emilio Salles Gomes, o nosso maior crítico de cinema que, no fim da vida, escreveu e lançou seu romance Três Mulheres para Três PPPs. Consta que Paulo Emilio, casado com Lygia Fagundes Telles, teria falado para a mulher: “Mas por que você não me avisou antes que era tão gostoso escrever ficção?”

Prazer mesmo, além de terapêutico, me ajudou como nada nem ninguém a atravessar aquele deserto. Depois de algum tempo, a vida retomou seu curso e esse arremedo de livro foi arquivado, trancado numa pasta e esquecido no fundo de alguma gaveta. Veio vindo comigo, através de várias mudanças, casas e mulheres em tempos e cidades diferentes, e já nem me lembrava dele.

Coisas velhas. Dinheiro fora de circulação, papeis antigos. Perderam todo o valor. Ou será que não? Será que permanecem intocados em algum canto da memória, imunes à inflação, como aquele quarto de Manuel Bandeira, suspenso no tempo tantos anos depois de a casa que o abrigava ter sido demolida?

Lembro de um verso de Drummond: quem sabe a malícia das coisas quando a matéria se aborrece?

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