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Coco Chanel e Igor Stravinski

Luiz Zanin Oricchio

30 de outubro de 2009 | 14h02

Há filmes que não deixam qualquer margem à dúvida e dizem a que vêm já a partir do título. É o caso deste Coco Chanel & Igor Stravinski, do holandês Jan Kounen. Claro: ele mostra o relacionamento entre a estilista, já rica e muito bem estabelecida na sociedade parisiense, e o emergente compositor russo, que tenta se impor na então capital do mundo com sua música inovadora.

É uma obra de detalhes, muito bem dirigida e interpretada. Concede tempo àquilo que o merece. Pode ser, por exemplo, a tumultuada estreia de A Sagração da Primavera no Théâtre des Champs Elysées em 1913. Foi uma sessão histórica, com pequena parte da plateia aplaudindo e a maioria vaiando e pedindo a cabeça do compositor. Entrou para antologia da intolerância em relação à arte moderna ao lado das críticas virulentas ao quadro Les Demoiselles d’Avignon, de Pablo Picasso, ou a censura ao romance Ulisses, de James Joyce. Todo esse quadro cultural é mostrado minuciosa e intensamente, da mesma maneira que o sexo entre a fogosa Coco e o devotado compositor russo.

Há também uma tentativa de rigor do filme, que vai do cuidado com a reconstituição de época ao respeito pelos idiomas – a família Stravinski fala russo entre si e francês com seus anfitriões. Uma solidez que não se esquece a intensidade das situações vividas. Elas se distribuem em duas frações de tempo. A primeira quando Coco comparece à estreia do bailado em Paris e a segunda quando ela, já rica e famosa, dá início ao caso com o compositor e abriga a ele e sua família em sua mansão nos arredores da cidade.

É um romance com prazo de validade, como sabem ambos. E Kounen procura exprimir esse amálgama de sentimentos e desejos temporários com toda a intensidade. Falta-lhe, talvez, uma pitada de desregramento, aquela que está música da Sagração da Primavera, mas não na linguagem desse filme – de estilo um tanto comportado, porém sólido.

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