As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Clooney, cabeça no ar, pés presos no chão

Luiz Zanin Oricchio

22 de janeiro de 2010 | 09h17

Amor sem Escalas (péssima “tradução” de Up in the Air) tem sido bem acolhido por onde passa. É considerado um novo bom trabalho do diretor Jason Reitman, que se tornou conhecido pelo sensível Juno, filme meio outsider, mas que caiu no gosto do público – e também da crítica. Além disso, traz também um inspirado George Clooney que tem se mostrado ator de talento, além de diretor com intenções sérias – como ficou comprovado com Boa Noite, e Boa Sorte, muito bem-recebido no Festival de Veneza ao evocar a época do macarthismo com clara alusão à época Bush.

Enfim, Reitman é um cineasta com um pé na produção independente e Clooney, um ator que dosa participações em arrasa-quarteirões com trabalhos mais empenhados. Na verdade, Amor sem Escalas é um misto indeciso entre essas duas vertentes do cinema, que não são inconciliáveis, mas raras vezes se mesclam e confluem na mesma obra. Aqui, por exemplo, Clooney faz o papel de Ryan Bingham, um especialista no trabalho sujo de despedir pessoas. Ele trabalha numa firma que terceiriza demissões. Viaja o país inteiro e visita as empresas contratantes, que decidiram fazer o seu “enxugamento” de pessoal, mas não quer sujar as mãos. Lá vem então Ryan, para mostrar a porta da rua a pessoas que nunca viu antes. E o faz com a mestria de um carrasco que não deixa sua vítima sofrer mais que o necessário. É um mestre em colocar a corda no pescoço alheio. Temos assim a impressão de que Amor sem Escalas irá fazer a crítica de um sistema no qual tal personagem pode existir e é visto como necessário.

O surpreendente é que entram duas mulheres em sua vida – e isso altera de modo substancial a história do personagem. Uma delas é a também viajante incansável Alex (Vera Farmiga); a outra, Natalie (Anna Kendrick), uma novata que virá trabalhar na mesma firma de Ryan propondo um método mais econômico, que consiste em demitir pessoas através de videoconferências pela internet.

Amor sem Escalas equilibra-se, assim, entre as vertentes da crítica social e os desdobramentos de uma comédia romântica, que às vezes parece inclinar-se para o lado da comédia dramática. Talvez o encanto do filme se encontre nessa forma mista, que o leva de um lado a outro, sem decidir-se por nenhum deles, o que deixa o espectador em certa suspensão. O que é bom. Por outro lado, essa indefinição serve também para não aprofundar seu lado crítico e diluí-lo, tornando-o dispersivo.

Quer dizer, a vocação do filme é o ecletismo. Como seu lado de contestação é limado em função da simpatia do personagem, o lado romântico sai beneficiado. Ryan poderia ser um canalha completo (ainda que cheio de charme), mas seu perfil vai mudando ao longo da história, saindo enriquecido pelo sentimento de solidão e a maneira como se defende dos envolvimentos amorosos mais sérios.

Isso lhe dá espessura. Mesmo porque, como pouco sabemos do seu passado, ficamos imaginando como teria se tornado no que é. Essa é uma das formas inteligentes da narrativa. Ao invés de tudo revelar, ou tudo querer explicar, deixa na sombra uma parte da história para que o espectador se sinta tentado a recriá-la. É uma opção que enriquece o filme.

Infelizmente, em seu miolo, Amor sem Escalas traz a bobajada sentimental típica de grandes produções, feitas com muito dinheiro e que têm medo de contestar o público em suas expectativas. Então aparecem aqueles clichês, como a exaltação da vida em família, do casamento e dos filhos como último anteparo contra o mundo cruel, etc. Nada disso combina com o potencial subversivo que o filme apresenta em seu início, mas devidamente aparado em seu desenvolvimento.

Feitas as contas, somadas as inspirações iniciais e deduzidas as concessões de percurso, sobra esse personagem complexo que Ryan, com a cabeça no ar, exercendo um ofício detestável e de coração vazio. Com mais um pouco de empenho poderia ser um personagem típico da nossa era, de insustentável leveza e imponderável vazio.

(Caderno 2, 22/1/10)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.