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Cisne Negro

Luiz Zanin Oricchio

04 de fevereiro de 2011 | 18h10

Universo da dança e, dentro dele, uma questão complexa: para o ser humano ser completo, tanto na vida como na arte, precisa integrar sua parte obscura ao seu lado mais benigno. Eis aí o que está em jogo em Cisne Negro, filme que tem impressionado alguns críticos e provocado desdém em outros.

Foi assim ano passado em Veneza, onde concorreu sem nada ganhar. Nem mesmo aquela que parece seu grande trunfo, a atriz da hora Natalie Portman, obteve o prêmio de interpretação feminina. Enfim, o filme de Darren Aronofsky, que havia vencido o festival italiano no ano anterior com O Lutador (papel de Mickey Rourke), saiu de mãos abanando e foi relativamente ignorado pela crítica. Esse é apenas um sintoma, que deve ser relativizado. Grandes filmes às vezes passam despercebidos e mostram sua força depois.

Premiações à parte, há o filme. O que se pode dizer dele? Um grande tema, sem dúvida, desenvolvido através de uma história não propriamente original. Nina (Natalie) é ótima bailarina, porém desprovida de alma. Disputa o papel protagônico em O Lago dos Cisnes sob a batuta de um coreógrafo tirânico vivido por Vincent Cassel. Nina é virgem, vive sob o tacão da mãe castradora (Barbara Hershey). Thomas (Cassel) acha que o papel é de Nina, mas não está plenamente convencido. Entende que ela interpreta muito bem o cisne branco (puro). Mas e o cisne negro (a pulsão, o sexo, o incontrolável)? Disso, ele não tem segurança. Nem nós.

Natalie parece purinha demais para um papel ambivalente. Ou seja, há necessidade de que uma contradição se apresente para que a história possa seguir. E ela aparece sob a forma de Mila Kunis, beleza provocante, hormonal, sexuada e em tudo contrária a Natalie. As duas moças disputam o papel e outras coisinhas mais, como verá o espectador. O expediente é fácil – uma dinâmica de contrários que movimenta um filme com problemas de deslanchar.

Aronofsky, que havia feito um belo trabalho com O Lutador, tenta aqui impor uma linguagem cinematográfica que demonstre essa luta de contradições. O verbo “demonstrar” não está aí por acaso. É perceptível a preocupação do cineasta em passar visualmente a sua “mensagem” e, com tanta insistência, que acaba por prejudicar aquilo que tem a dizer. Diga-se de passagem, Aronofsky não é cineasta conhecido por sua sutileza. Basta lembrar de A Fonte ou mesmo de O Lutador, que tem muitas qualidades, mas não a do trabalho em entrelinhas ou com subentendidos. Com Aronofsky é tudo na lata, por assim dizer.

Para não deixar dúvidas, monta o visual com contrastes entre preto e branco, insiste no tom expressionista para demonstrar a confusão psicológica de Nina, e por aí vai. A grandiloquência do todo é compensada pela falta de tônus de algumas partes. Perde no conjunto. Mas tem Mila Kunis.

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