Cinema urgente para um país em transe
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Cinema urgente para um país em transe

'Intervenção', 'Escolas em Luta' e 'Operações de Garantia da Lei e da Ordem' foram exibidos na Mostra Cinema Urgente, no Cineclube Bijou. São filmes feitos sob a premência da crise brasileira

Luiz Zanin Oricchio

27 de novembro de 2017 | 18h02

Operações de Garantia da Lei e da Ordem: política na rua

Sexta-feira à noite, no Cineclube Bijou, discutimos o documentário Intervenção – Amor não quer dizer Grande Coisa, da trinca Tales Ab’Saber, Rubens Rewald e Gustavo Aranda.

O filme é montado com imagens colhidas na internet entre os anos 2015 e 2016, em geral de sites da extrema-direita. É um repositório incômodo, clínico e político do pensamento radical de direita no país.

Há matizes entre eles mas a franca maioria das pessoas que fala para suas câmeras e expõe-se na web é de gente que pede a intervenção militar. Ditadura, pura e simples. O antipetismo mais radical domina e o anticomunismo parece às vezes tão primário quanto o de um filme que trata do macarthismo durante a Guerra Fria.

Na mesa de debate estávamos Jean-Claude Bernardet, Raul Arthuso e eu, além dos três diretores.

Eu comecei o debate e, baseado na impressão de quem viu o filme três vezes, falei do efeito cômico de algumas falas. E, depois, de como esse cômico ia se esvaziando, dando lugar a um constrangimento crescente. Como chegamos a isso? Como um dia sairemos disso? Perguntas sem respostas.

Voz um tanto destoante foi a de Jean-Claude, que não gostou do filme e considerou-o simples circo de horrores, um mundo cão da direita, em que questões fundamentais eram pouco discutidas ou ignoradas de todo.

Lembro de duas dessas objeções de Bernardet: a maçonaria, obsessão de um rapaz que aparece várias vezes no filme não é levada a sério; e a fala de outro, que afirma que manifestações não derrubam ninguém também é ignorada.

Opinião de Jean-Claude deve sempre ser levada em conta mas, neste caso em particular, não consigo lhe dar razão. Acho que teorias da conspiração não contribuem para iluminar o terrível momento político que vivemos. E entendo que multidões sozinhas podem não derrubar governos, mas dão respaldo a movimentos políticos que tentam desestabilizá-los. Sem as multidões de Petrogrado talvez os bolcheviques não tivessem derrubado o governo provisório de Kerenski. E sem as manifestações da Avenida Paulista, ainda que hiper dirigidas, talvez não tivesse sido possível golpear de morte o governo Dilma. Talvez. Não se sabe. Mas a História ensina, se alguma coisa ensina, é que povo na rua não é elemento a ser negligenciado.

Enfim, falamos e debatemos com uma energia muito interessante em tempo pouco inspirador como este. A pequena sala do redivivo Bijou estava lotada, para minha surpresa. A participação da plateia foi muito intensa e inteligente, mostrando que o tema da escalada da direita é muito sensível para certa parcela da população.

Intervenção foi o último filme da mostra Cinema Urgente, composta também por Operações de Garantia da Lei e da Ordem, de Julia Murat e Miguel Ramos, e Escolas em Luta, de Eduardo Consonni, Rodrigo T. Marques e Tiago Tambelli. Este último venceu a Mostra de Cinema de Gostoso, recém-encerrada.

São filmes, como indica o título da mostra, feitos sob premência de um tempo político excepcional, com disputas pouco limpas pelo poder, manifestações de ruas, polarizações febris, intolerância, agressividade e a ascensão de uma nova direita, aguerrida e ocupando lugar no espaço virtual.

Esse Brasil que se redesenha, sem que ninguém tenha noção muito precisa de qual será sua configuração final, tem se refletido no cinema. Estes são os filmes que estão na linha de frente. No fronte mesmo. Não sei quando será possível vê-los de novo e em que plataforma ou circunstância. Mas estão circulando por aí.   

 

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