Cinema Olympia 100 anos
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Cinema Olympia 100 anos

Luiz Zanin Oricchio

05 de maio de 2012 | 14h20

 

 

BELÉM – Os tempos eram outros. Quando o Cinema Olympia foi inaugurado, dia 24 de abril de 1912, as damas foram de chapéu, vestidas de gala e com elaborados penteados. Os cavalheiros puseram seus melhores ternos de linho branco inglês e chapéus de palhinha. Na tela, as “fitas” eram mudas e acompanhadas por pequena orquestra ou piano. Ir ao Olympia era tão elegante quanto frequentar o seu vizinho na Praça da República, centro de Belém – o Theatro da Paz, palco das melhores óperas da temporada. Ao lado do Olympia havia o igualmente chique Grande Hotel, no terraço do qual um jovem Mário de Andrade “chupitava” um gelado para atenuar o calor tropical e dizia-se completamente apaixonado pela cidade.

Vale a pena citar o texto: “Porém, me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrace em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçude açaí.”

 

Cem anos depois, o velho cinema ainda está lá, na mesma Praça da República onde o modernista paulistano curtia, lânguido, seu amor ao Brasil. O Theatro da Paz também continua ativo e, do passado, guarda a ótima acústica, a altivez arquitetônica e a grafia antiga, theatro, com “Th”. Já o Grande Hotel foi derrubado e deu lugar a um hotel vertical e moderno. Nada que lembre os anos de ouro da borracha, fonte da fortuna do baronato amazônico.

O próprio Olympia já não exibe a fachada de outrora. Foi refeita, por alguém que teria pouca familiaridade com ideias como a preservação do patrimônio histórico. De qualquer forma, alterado e reformado, é o mesmo cinema que está lá, naquele mesmo local, há um século, com o mesmo nome, sem interrupções de atividades, a não ser para reformas pontuais. Essas condições de existência o transformam no cinema mais antigo do País, ainda em atividade. Antes do Olympia, existiram outras salas de exibição, mesmo em Belém; porém, há muito já fecharam as portas, viraram templos evangélicos, estacionamentos, ou foram demolidas e seus terrenos deram lugar a espigões. No Rio, o Cine Íris foi fundado em 1909, mas com o nome de Soberano e hoje se dedica a shows eróticos de strip tease. O Olympia segue fiel à sua função original.

A persistência da sala é um desafio vivo à especulação imobiliária, ao crescimento predatório e desordenado das cidades brasileiras e às próprias mudanças de hábito da população. Essa resistência tem sua origem, em especial, no amor das pessoas de Belém ao seu velho cinema. Amor que sofreu modificações e testes duros ao longo das décadas. Dos tempos áureos da borracha aos nossos dias, o Olympia sofreu grandes transformações. Da fase muda, passou galhardamente para a época sonora. Popularizou-se com a chanchada, depois de adquirido em 1946 pelo grupo de Luiz Severiano Ribeiro, maior exibidor do Nordeste e até hoje o mais importante grupo exibidor de capital brasileiro.

Em 2006, a empresa resolveu fechar as portas do cinema, alegando prejuízo financeiro. Parecia o fim. Mas aquela que seria a última sessão transformou-se em ato político para a preservação do cinema, liderada pelo cineasta Januário Guedes, que subiu numa das cadeiras vermelhas do cinema, na primeira fila, e leu apaixonado manifesto. O ato público sensibilizou a prefeitura, que assinou contrato de aluguel com o grupo Severiano Ribeiro, transformando a sala em Espaço Municipal.

Hoje, o Olympia é o que se poderia chamar de “cinema de arte”, com cardápio de programação alternativa. O programador é Marco Antonio Moreira, presidente da Associação de Críticos do Pará. Sob a inspiração do cinéfilo Moreira, pela tela do Olympia passam cinematografias que em geral não têm vez no circuito comercial. “Realizamos há pouco um ciclo do cinema polonês, com títulos inéditos no País”, diz. Moreira faz questão, também, de lançar e exibir no Olympia obras da cinematografia local, como os curtas Matinta, de Fernando Segtovick, e Ribeirinhos do Asfalto, de Jorane Castro.

Ou seja, o cinema está lá, ativo, altivo, em pé, e com boas perspectivas para o futuro. Mas a batalha por sua preservação ainda não terminou. “Precisamos obter o tombamento do imóvel”, diz Moreira. O primeiro passo já foi dado pela Câmara Municipal de Belém, que aprovou o pedido de tombamento por unanimidade. Mas outros passos precisam ser dados para que o imóvel seja de fato tombado como patrimônio cultural e arquitetônico. Será preciso desapropriá-lo, negociar seu valor com o grupo Severiano Ribeiro.

Em seguida, o passo talvez mais complicado – restaurar a fachada para que volte a ser como na belle époque da borracha. “Para isso será preciso formar parcerias, pois toda restauração é muito cara”, diz.

Todo esse desafio parece possível, a julgar pelas comemorações do centenário. Para expressar seu amor ao cinema, Belém preparou uma festa e tanto. Foram lançados um álbum que resgata fotos históricas do cinema e seus frequentadores e o livro Cinema Olympia – 100 Anos da História Social de Belém, organizado pelos críticos Pedro Veriano e Luzia Miranda. Depois da cerimônia no próprio cinema, os espectadores cruzaram a praça para assistir ao recital da cantora lírica Carmem Monarcha no Theatro da Paz. As roupas eram outras, mas a devoção das pessoas às suas salas de espetáculo parecia a mesma de cem anos atrás.

 

 

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