As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cinema nacional, estrangeiro em seu país

Luiz Zanin Oricchio

24 de novembro de 2012 | 20h38

Uma sexta-feira gorda expressa, ainda que de maneira um tanto deformada, a atual situação da nossa cinematografia. Nada menos do que cinco novos filmes brasileiros chegam às telas, o que não é usual. Quatro deles são documentários: O Contestado – Restos Mortais, Construção, Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now e São Paulo Companhia de Dança. Apenas uma ficção, Disparos, de gênero policial, entra em cartaz.

Essa penca de estreias mostra bem a nova força do documentário brasileiro, um gênero que, de minoritário, cresceu a ponto de aproximar-se de quase 50% da produção atual. Há a influência das novas tecnologias digitais, que barateiam a produção, mas o doc é forte porque retrata o País e o mundo, e o faz com uma diversidade de linguagens digna de nota.

No entanto, não se trata de gênero fadado ao sucesso. Raros são os documentários que atingem números relativamente expressivos, como Vinícius de Morais e Pelé Eterno, que ultrapassaram a casa dos 200 mil espectadores anos atrás. Para tomar um contra-exemplo, na semana passada tivemos a estreia de 5 x Pacificação, que fez apenas 1860 pagantes, em 16 salas. Muito pouco para um filme que discute assunto da importância das polícias pacificadoras e o redesenho por elas imposto ao mapa da violência urbana no Rio de Janeiro.

Há outro dado, também, a respeito dos documentários, e deve ser levado em conta. Quem acompanha o circuito dos festivais de cinema sabe que alguns desses filmes foram vistos anos atrás e só agora chegam ao circuito comercial. Têm de dar graças a Deus, porque outros, talvez a maioria, simplesmente não chegam a ser mostrados ao público. Exaurem sua vida útil no circuito das mostras de cinema. São Paulo Companhia de Dança, por exemplo, foi mostrado em 2010, em Paulínia. Idem para O Contestado, concorrente no Festival de Gramado de 2010. Tropicalismo Now é mais recente: esteve no Cine Ceará deste ano, em junho. Construção passou na Mostra de São Paulo do ano passado.

Já a única ficção – Disparos – inspirada, como o título sugere, na violência urbana, terá de enfrentar desafio adicional: a absoluta predominância das comédias na preferência do público do cinema nacional. De acordo com o Boletim Filme B (publicação de referência sobre o mercado cinematográfico), dos cinco primeiros colocados no ranking nacional, quatro são comédias. Quais são elas? Até que a Sorte nos Separe, E Aí, Comeu?, As Aventuras de Agamenon e Totalmente Inocentes. Entre as primeiras colocações, e destoando das comédias, entra apenas a cinebiografia Gonzaga – de Pai para Filho, que esta semana atingiu a marca de 1,1 milhão de espectadores.

Essa é a situação do cinema nacional. Detém uma fatia de público que flutua, de ano a ano, entre 10% a 15% do mercado, com poucas exceções. A parte do leão o circuito fica com Os Vingadores, os vampiros light da saga Crepúsculo e o 007. Na minguada fatia da pizza dedicada aos nacionais, reinam, de maneira quase absoluta, as comédias ligeiras ou grosseiras, de tom televisivo, a grande maioria coproduzida pela Globo Filmes, o braço cinematográfico da poderosa Rede Globo.

Para os outros, sobra o resto e é nesse espaço estreito que os cinco filmes que entram em cartaz esta semana procuram o seu público.

São filmes que merecem oportunidade. O Contestado, de Sylvio Back, aborda a guerra em Santa Catarina de maneira original. A tragédia do Contestado teve dimensão e importância aproximadas às de Canudos. Mas, diferentemente da saga do Conselheiro e do fim sangrento da repressão aos moradores do arraial, o Contestado não teve um narrador de gênio como Euclides da Cunha. Back esmiúça essa herança através de um recurso que, à primeira vista, pode parecer extravagante: vale-se de vários médiuns que “receberiam” espíritos de gente presente na guerra. A estranheza desaparece quando pensamos no depoimento dos médiuns como recurso narrativo de evocação de memórias soterradas – como é bem o caso da Guerra do Contestado.

De certa maneira, a memória tem sido um terreno bastante fértil, frequentado pelos documentários brasileiros. Em Tropicalismo Now, os diretores Ninho Moraes e Francisco César Filho revisitam esse importante movimento brasileiro, divisor de águas nos anos 60 e 70, e o fazem com olhos no presente. Tentam analisar de que modo ideias estéticas e políticas de Gil, Caetano & Cia ainda têm validade no século 21. Em Construção, a diretora Carolina Sá tenta unir algumas pontas de sua vida através de sua saga familiar nada banal. Apenas Evaldo Mocarzel em seu São Paulo Companhia de Dança fixa-se no presente e no corpóreo. Num trabalho quase exclusivamente visual, procura registrar a beleza e o esforço físico dos bailarinos, com uma câmera rente ao corpo e a pele. É um dos seus melhores trabalhos.

A única ficção do grupo, Disparos, da diretora Juliana Reis, tenta cavar seu espaço no imaginário nacional por meio de um gênero de pouco trânsito entre nós – o suspense policial. A história é a de um fotógrafo carioca envolvido involuntariamente num caso de violência. O palco da ação é a cidade do Rio de Janeiro e a trama se resolve numa única noite. Em seu filme de estreia, Juliana tenta entrar num filão bastante popular em termos internacionais, mas que no Brasil produziu apenas uma obra-prima, Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias, isso nos longínquos anos 60. A expectativa é saber se o refratário mercado brasileiro poderá tratar bem esse filme que tem bons atores no elenco, como Gustavo Machado, Caco Ciocler e Dedina Bernardelli.

Vistos individualmente, esses filmes revelam diretores antenados com sua realidade, com o imaginário nacional e com novas tendências de linguagem do cinema mundial. Há entre eles, artistas de várias gerações, do experiente Sylvio Back a uma estreante como Juliana Reis. Em seu conjunto, mostram algo mais: a dificuldade que o cinema brasileiro tem de se afirmar no mercado. Ainda é um estrangeiro em seu país.

Tudo o que sabemos sobre:

cinema brasileiro

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.