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Cinema italiano: enfrentando o peso do passado

Luiz Zanin Oricchio

23 de novembro de 2007 | 10h29

Uma boa amostra do cinema italiano contemporânea tendo como ponto de referência e contraponto um clássico dos anos 70 – assim pode ser resumida esta terceira edição da Mostra Venezia do Cinema Italiano. Os filmes recentes participaram do Festival de Veneza, realizado em setembro – Il Dolce e L’Amaro, de Andrea Porporati, L’Ora di Punta, de Vincenzo Marra, La Ragazza del Lago, de Andrea Malaioli, Non Pensarci, de Gianni Zanasi, Hotel Meina, de Carlo Lizzani, Valzer, de Salvatore Maira. O clássico? Nada menos que La Strategia del Ragno, A Estratégia da Aranha, que Bernardo Bertolucci dirigiu a partir de um breve relato de Jorge Luis Borges, Tema do Traidor e do Herói. A cópia nova deste filme também foi exibida em Veneza e Bernardo esteve lá para assisti-la com o público.

É preciso dizer que esta seleção de filmes novos parece bem representativa do cinema italiano contemporâneo. Amplamente discutidos durante o Festival de Veneza, nem sempre foram unanimidades da crítica italiana. Pelo contrário, essa crítica tem sido reticente com a produção contemporânea do país e o os realizadores a acusam de nostalgia crônica pela época de ouro, a era de Fellini, Visconti e Antonioni entre tantos diretores geniais que a Itália produziu. Nostálgicos não conseguem enxergar o novo, dizem, o que é parcialmente verdade.

Por exemplo, Il Dolce e l’Amaro e L’Ora di Punta, que concorreram ao Leão de Ouro, não são nada maus, pelo contrário. O primeiro recua aos anos 80, filme de gênero sobre a Cosa Nostra e as opções que se têm de fazer na vida. O segundo, que inclui no elenco a grande atriz francesa Fanny Ardant, fala também de corrupção, um fiscal de rendas que se une a uma mulher mais velha (Ardant) e consegue realizar seus propósitos de alpinismo social. O problema desses filmes não está nos temas que escolhem, mas na linguagem cinematográfica, por vezes convencional e de baixa intensidade, que adotam. Não satisfazem totalmente, ainda mais quando existem padrões de excelência com os quais podem ser comparados.

Elogiado foi Hotel Meinà, que passou fora de concurso, mas no caso deve-se entender o contexto. É dirigido por Carlo Lizzani, veterano dos bons tempos, que foi alvo de homenagens em Veneza. Lançou sua auto-biografia e ganhou documentário sobre sua carreira. É nome importante do cinema italiano e vê-lo cheio de vida e em atividade em idade avançada é sempre motivo de júbilo. Ademais, Lizzani mexe com um assunto difícil – a questão judaica na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

Dos três restantes, La Ragazza del Lago, Non Pensarci e Valzer, este último parece o mais interessante, pelo menos no aspecto formal. Realizado num único plano-seqüência (isto é, sem cortes) o filme de Salvatore Maira chegou a provocar boas reações em Veneza. Alguns jornalistas afirmaram que era o filme italiano que deveria estar em concurso e não outros. Formaram-se filas para vê-lo nas poucas sessões programadas. E, de fato, é um trabalho interessante, nessa história do pai que vai em busca de sua filha, com a qual tivera contato apenas através de cartas. Por paradoxo, a tensão criada pelo dispositivo formal esfria um pouco o resultado. Mas as soluções encontradas são boas – inclusive na possibilidade de flashbacks, indo ao passado, sem necessidade de cortes.

Mas, sim, é a cópia nova de A Estratégia da Aranha a principal atração. Bertolucci adapta Borges para pensar a herança do fascismo em seu país. A especulação é aquela: o que é um herói? Pode um traidor se transformar em herói, mesmo que esse processo não passe por aquela manjada história da “segunda chance” do cinema americano? Tudo isso com aquela fluência, com a elegância dos planos e a intensidade do elenco que consegue Bernardo Bertolucci.

O problema do cinema italiano contemporâneo é esse: como transformar em inspiração o peso de uma tradição muito forte.

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