A bola na tela
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A bola na tela

Luiz Zanin Oricchio

31 de dezembro de 2007 | 13h16

zizou

Amigos, domingo, no Caderno de Esportes, fiz um apanhado dos filmes/DVDs que têm saído tendo o futebol por tema. Escrevi sobre o DVD comemorativo do título do São Paulo, a conquista do Inter-RS no Mundial de Clubes, e sobre um documentário dedicadado a Zinedine Zidane. Se você gosta do tema, dê uma olhada no material.

Penta, o DVD oficial do Campeão Brasileiro 2007, é o típico filme destinado ao torcedor. Não apenas porque celebra o título do São Paulo, sua quinta conquista na principal competição brasileira, mas porque faz da torcida seu mais importante personagem. O São Paulo, time bem organizado que é, não se esquece de que construiu ao longo dos anos um patrimônio de títulos e imóveis, mas sua benfeitoria maior encontra-se na torcida, em número crescente.

Daí a ênfase do filme em acompanhar os passos da conquista do título através dos olhos dos torcedores do São Paulo, tanto os que moram na capital como fora dela. Assim, entrevista gaúchos, cariocas e nordestinos que torcem para o tricolor. O filme insiste nesse fato, pois a ambição dos clubes é sempre escapar ao seu âmbito regional, proeza que, até agora, apenas o Flamengo foi capaz de realizar de maneira ampla. Quem conhece o Brasil sabe que se encontra torcedor flamenguista onde quer que se vá. Em algumas regiões do País eles são até mais numerosos que a torcida local, como é o caso em Manaus, por exemplo. O São Paulo anda atrás dessa situação privilegiada, de forma incipiente ainda, mas já com alguns resultados. Desse modo, não deixa de ser interessante saber da existência de um bar são-paulino em pleno Rio de Janeiro, no qual a torcida se reúne para acompanhar os jogos pela televisão. E não são apenas paulistanos e paulistas na diáspora – há cariocas da gema que optaram pelo São Paulo.

Outro ponto de interesse são imagens internas desse grupo vencedor. As palestras de Muricy não são mostradas, mas vêem-se na tela imagens de Rogério Ceni, capitão do time, e responsável pela preleção final aos colegas. Rogério não é bom apenas embaixo do gol e batendo faltas – é convincente também com as palavras. Vai dar um bom cartola, no dia em que pendurar as luvas.

É pena que na reprodução dos jogos o filme não vá tão bem. As imagens não resgatam a emoção no campo de jogo – o que, convenhamos, é mesmo difícil de fazer, como sabe qualquer freqüentador de estádios. Também parece equivocada a decisão de não dar qualquer colher de chá para o outro lado. Por exemplo, quando o adversário marca contra o São Paulo, o gol não é mostrado. Certo, o filme é, basicamente, destinado ao torcedor são-paulino, mas por que encobrir as dificuldades da conquista? São os obstáculos que fazem o encanto do futebol e valorizam o título. Sem suor e contratempos, não tem graça.

Mas, apesar desse senão, para o torcedor do São Paulo, é uma boa lembrança desse título tão importante. Afinal, o tricolor paulista é o único penta do futebol brasileiro. Conquista inédita que sairia ainda mais valorizada caso o filme também se lembrasse dos títulos anteriores – 1977, 1986, 1991 e 2006. Seria mostrar senso histórico, pois um penta não se constrói sem um tetra, sem um tri, etc. Como dizia alguém, de outro ramo de atividade, uma grande marcha não se faz sem o primeiro passo.

Um jogo inteiro na companhia de Zidane

Se Penta é filme de torcedor, Zidane – um Retrato do Século 21, é um trabalho de pretensão artística. Pretensão, aqui, não é palavra usada no mau sentido. Quer dizer, apenas, que a dupla de diretores, Douglas Gordon e Philippe Parreno, teve a ambição de ir além do mero registro factual de um jogador famoso em ação. Nada, nesse “perfil” de Zinedine Zidane, lembra as cinebiografias convencionais que contam a história do ídolo, o modo como chegou ao esporte que o consagra, suas glórias e eventuais percalços (logo superados, claro). Nada disso. Zidane concentra-se em uma única partida – Real Madrid 2 x 1 Villarreal, realizada no dia 23 de abril de 2005 no Estádio Santiago Bernabéu.

O jogo valia pelo Campeonato Espanhol e as câmeras – 17 – concentraram-se única e exclusivamente na figura de Zidane. O filme é isso, um registro em tempo real da atuação de um grande jogador. Zidane é visto com a bola e sem ela. É filmado de corpo inteiro, mas às vezes vêem-se apenas suas pernas. Ou os pés. É um registro de detalhes. Ficamos sabendo, por exemplo, que Zidane tem o hábito, talvez inconsciente, de arrastar, de tempos em tempos, a ponta da chuteira na grama, como para limpá-la. Esse é o detalhe mínimo. O que vemos melhor é a maneira de andar em campo, elegante como a de um Ademir da Guia, o modo de se dirigir aos companheiros, a concentração, a visão de jogo. Enfim, é toda a exibição do espaço e do tempo de uma partida de futebol vistos pelo olhar de um craque, talvez o último dos grandes do futebol contemporâneo.

A concentração das câmeras em Zidane é tamanha que as ocasiões de gol, quando a bola se afasta do personagem, têm de ser reconstituídas através de imagens da televisão.

Para o amante do esporte, o filme tem um soberbo valor documental. É um estudo comportamental sobre a presença em campo de um fora-de-série. Sentimo-nos próximos de Zidane quando ele enfrenta uma marcação cerrada, quando divide a bola, quando a conduz e finalmente escapa de vários marcadores, cruzando da esquerda para colocá-la na cabeça do companheiro que marca o segundo gol do Real com muita facilidade. Ficamos próximos mesmo quando Zidane é expulso de campo, junto com o adversário com quem se desentendeu, já no final da partida.

O trabalho dos cineastas é magnífico e ficamos nos perguntando por que diabos ninguém teve a idéia de fazer um filme desses tendo Pelé ou Garrincha como personagem.

Os passos do Inter rumo a sua maior conquista

A Terra é azul, como dizia o cosmonauta Yuri Gagarin? Não, para o torcedor do Internacional de Porto Alegre ela é vermelha. Essa, a primeira e bem bolada seqüência de imagens de Gigante – Como o Inter Conquistou o Mundo, filme oficial do Inter sobre o seu maior título em quase cem anos de história, o Mundial de clubes de 2006 obtido em cima do Barcelona de Deco, Ronaldinho Gaúcho e Eto’o.

O filme mostra a conquista em seus passos sucessivos – a vitória na Libertadores contra o São Paulo, a viagem a Tóquio, os preparativos para o jogo e a partida em si. O mestre de cerimônias é o meia atacante Fernandão, que comandou seu time ao longo da trajetória e a relembra para os espectadores.

A qualidade maior de Gigante vem do fato de ter sido dirigido e montado por excelentes profissionais, tarimbados em cinema. A direção é de Gustavo Spolidoro e a montagem é de Giba Assis Brasil, dois craques em suas áreas de atuação e, claro, colorados juramentados. O filme une assim competência e paixão – duas qualidades, aliás, indispensáveis para conquistar títulos ou qualquer coisa que valha a pena na vida.

Talvez por ser obra de profissionais de alto nível, Gigante exiba outra qualidade que dificilmente os filmes oficiais têm. Ele consegue, por uma hábil manipulação de montagem, sugerir toda a tensão e toda a dificuldade da conquista desse título. Devolve aos colorados não apenas o prazer da vitória, mas todos os outros ingredientes de uma grande façanha, que incluem a tensão, o medo, a expectativa e, por fim, a euforia. Assim, aquele gol redentor de Adriano Gabiru surge como conseqüência de todo um vasto trabalho realizado por uma coletividade. O que de fato foi. A reconstituição, como cinema, é brilhante.

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