Cinema de gângster
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Cinema de gângster

Luiz Zanin Oricchio

06 Fevereiro 2013 | 15h04

Scarface, de Howard Hawks

Não existe tanto acaso na vida. O cinema de gângster nasce nos anos 1930, nos Estados Unidos, justamente com a ascensão do crime organizado ligado à Proibição. Dedicados ao tráfico ilegal de bebidas alcoólicas, criminosos como Dillinger, Al Capone e outros ficaram famosos. O cinema se ocupou desse tipo de criminoso em tramas predominantemente urbanas, noturnas, recheadas de tiroteios, mulheres fatais, fumaça de cigarro, jogatina e bebida à vontade. Os antológicos: Inimigo Público (1931), de William Wellman, Alma do Lodo (1931), de Mervyn LeRoy e, acima de todos, Scarface, Vergonha de uma Nação (1932), de Howard Hawks.

O gênero terá um desdobramento interessante no noir, cujo título fundador é Relíquia Macabra (1941), de John Huston. Baseados em romances de Dashiell Hammett ou Raymond Chandler, colocam em cena, em meio ao mundo criminal, a figura do detetive particular. Sam Spade para Hammett, Philip Marlowe para Chandler, representavam tipos durões, com trânsito mais ou menos livre entre a lei e o crime. Num mundo mais confuso, representavam justamente essa ambiguidade, esse não-lugar onde podiam confortavelmente se mexer entre policiais e bandidos, mulheres honestas e outras nem tanto, entre tragadas fundas de cigarro e talagadas de uísque – agora já legalizado. As formas do crime haviam mudado e sua representação no cinema também.

Filmes como Até a Vista, Querida (1944), de Edward Dmytryk, ou À Beira do Abismo (1946), de Hawks, representam ápices do gênero. Humphrey Bogart e Lauren Bacall, casados na vida real, eram protótipos do machão e da femme fatale. Em seu núcleo, o gênero não contempla apenas o crime de maneira isolada, como fenômeno autossuficiente, mas expressa-o em termos de drama social. É o caso do mais notável dentre eles, O Segredo das Joias (Asphalt Jungle, 1950), de Huston.

Uma variante interessante, que pode ser considerada um subgênero, quase um gênero em si, é o filme de máfia, dedicado exclusivamente à criminalidade de origem ítalo-americana. Contém as características normais do gênero gângster, como a truculência e o relacionamento ambíguo com a lei, mas incorpora um elemento a mais, tipicamente italiano – o culto à família. Não é um acaso que a quadrilha em si se autoproclame uma “famiglia”, mas as relações familiares propriamente ditas explodem em intensidade e muitas vezes se colocam no centro da narrativa. É dessa forma, como saga familiar, ou melhor, como tragédia familiar, que pode ser vista a magnífica trilogia O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola. No mesmo registro interno das relações familiares, outro “oriundo”, Martin Scorsese, trata da pequena criminalidade ítalo-americana em Os Bons Companheiros, filme de violência soturna e banhado na culpa católica do realizador.

Como costuma acontecer, o gênero conhece continuações e diluições, como no brilhante noir tardio Chinatown (1974), de Roman Polanski. Às vezes um caminho derivado escolhe a paródia ou a comédia como A Honra do Poderoso Prizzi (Huston, 1985), ou A Máfia no Divã (Harold Ramis, 1999). Sintoma, provavelmente, de cansaço do gênero que só consegue se revitalizar assumindo-se de vez como paródia e autocitação, como faz Quentin Tarantino em Pulp Fiction, produto típico do pós-modernismo.