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Cinema baixado da internet

Luiz Zanin Oricchio

18 Março 2007 | 10h19

Um leitor me pergunta o que acho de ver filmes baixados da internet. Primeiro, devo dizer que não tenho esse hábito. Como todo mundo, tenho um e-mule no meu computador, mas só o usei para baixar um filme, até hoje. E mesmo assim porque esse filme não se encontra de outro jeito.

Pois bem, sei que essa é a principal motivação para se baixar filmes pela internet – são títulos que não se encontram de outra forma. Conversei com cinéfilos jovens e sei que existe a prática de baixar filmes em série do mesmo diretor, o que lhes possibilita conhecer uma obra de autor pouco divulgado – e em seu conjunto. Isso é ótimo.

As poucas cópias que vi baixadas da internet, no entanto, me parecem de qualidade duvidosa. Pode ser que existam melhores, não sei. De qualquer forma, quem as vê tem de estar consciente que está assistindo a um filme diferente daquele que foi planejado pelo diretor. Mas, quando assistimos a um DVD, mesmo que de boa qualidade, não estamos também vendo um filme diferente? Claro que sim, por melhor que seja a cópia. Uma coisa é uma cópia de 35 mm, brilhando, numa sala escura com projeção e som ideais. Outra, bem diferente, é o mesmo filme visto numa tela menor, mesmo que nas boas condições hoje propiciadas por um home theatre. São condições diferentes.

Mas, antes também era difícil ver certos filmes nas tais condições perfeitas. Pelo contrário, era raro que se conseguisse ver pela primeira vez um grande filme do passado em totais condições técnicas de exibição. Tomei contato com filmes fundamentais, como Encouraçado Potemkim, O Sétimo Selo e Cidadão Kane através de cópias esfarrapadas, exibidas em salas precárias. Às vezes cópias em 16mm, riscadas, dando “pulinhos” a cada cinco minutos e banda sonora apenas audível. Foi uma maneira ideal de ver pela primeira vez esses filmes? Certamente não.

Já vi e revi, talvez dezenas de vezes, o meu filme brasileiro favorito – Terra em Transe, de Glauber Rocha. Somente há dois anos, no entanto, tive o prazer de assisti-lo em cópia 35 mm, restaurada, quer dizer, conforme o projeto estético de Glauber. As outras vezes que o vi, bem, foram maneiras de tomar contato aproximado com o filme, a ponto de poder escrever sobre ele, estudá-lo e esmiuçá-lo. Mas não era o filme pensado por Glauber, em sua integridade audiovisual.

Fica difícil sustentar o purismo cinefílico, mesmo porque existem filmes que dificilmente poderemos assistir segundo o seu projeto original. São os casos, por exemplo, dos filmes em 70 mm, como Cleópatra, de Joseph Mankiewcz.

O e-mule pode não ser a solução ideal e seu uso coloca inclusive questões legais, como a dos direitos autorais. Mas não conheço nenhum cinéfilo que venda cópias. Ele as compartilha. E é melhor ver essas cópias imperfeitas do que continuar na ignorância de filmes que, de outra forma, não seriam conhecidos. Mas quem os vê precisa estar consciente de que está diante de uma reprodução aproximada daquilo que foi o projeto original de um artista.