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Cinema: a nossa imagem lá fora

Luiz Zanin Oricchio

19 de maio de 2013 | 12h31

A Ancine, a agência reguladora do cinema nacional, criou um programa para mostrar filmes brasileiros aos curadores de festivais internacionais.

Denominado Encontros com o Cinema Brasileiro, o programa, parceria entre os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores, visa solucionar um problema, a atual falta de visibilidade do cinema brasileiro no exterior, em especial nos grandes festivais de cinema. Este ano, a única marca brasileira no Festival de Cannes é a presença de dois curtas-metragens. Há cinco anos o Brasil está ausente da competição daquele que é considerado o mais midiático dos festivais de cinema do mundo. O último filme a concorrer a uma Palma de Ouro foi Linha de Passe, de Walter Salles (venceu a atriz Sandra Corveloni). A única Palma de Ouro brasileira foi conquistada em 1962, com O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte.

Em eventos similares, em especial Berlim e Veneza, a situação não é muito melhor. Berlim até que vem sendo mais generoso com o cinema brasileiro e já lhe deu dois prêmios principais, o Urso de Ouro – em 1998 para Central do Brasil, de Walter Salles, e em 2008 para Tropa de Elite, de José Padilha. Nem por isso o cinema brasileiro conseguiu posto significativo no festival alemão depois da vitória das aventuras do paladino Capitão Nascimento, o personagem de Wagner Moura em Tropa de Elite.

Em Veneza a coisa é pior ainda para os brasileiros. Nunca o País ganhou o prêmio principal, o Leão de Ouro, e sua participação nos últimos anos tem ficado restrita a mostras paralelas.

O que acontece?

Parte do problema se deve à falta de divulgação adequada, parece indicar a Ancine ao patrocinar esses encontros dos curadores com os filmes.

Outra parte tem a ver com a natureza da produção brasileira, ao menos como ela é percebida no exterior. Dirigentes dos principais festivais, ao serem questionados sobre a ausência brasileira em seus eventos, verbalizam um diagnóstico que coincide com o de muitos críticos de cinema patrícios. A produção brasileira estaria dividida entre filmes televisivos, que cortejam de forma muito direta o mercado, e filmes que, por reação, se colocam de maneira esteticamente muito fechada em relação ao público. A cinematografia brasileira iria do 8 ao 80. Ou produtos descartáveis, para ver e esquecer, ou obras muito fechadas, com escassa possibilidade de diálogo fora do círculo de amigos do cineasta e sua família. Nem os primeiros nem os últimos interessam aos festivais.

Mas é claro que, olhando de perto, o cinema brasileiro fornece esse tipo de filme dotado de ambição artística porém sem desprezo pelo público. A cada ano temos exemplos desses filmes e nos perguntamos por que os festivais não se interessam por eles. Talvez falte mesmo uma aproximação maior. Uma diplomacia do cinema mais eficaz.

Como aquela que existia, de maneira informal, na época ainda mais famosa do cinema brasileiro no Exterior, a do Cinema Novo, que floresceu ao longo da década de 1960 e era presença frequente não apenas nos grandes festivais de cinema do mundo, mas nos textos dos críticos mais influentes do planeta. Em outras palavras, diferentemente de hoje, o cinema brasileiro existia para o exterior e nomes como os de Glauber Rocha, Paulo Cesar Saraceni, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Leon Hirszman, Cacá Diegues e Joaquim Pedro de Andrade eram moeda corrente no mundo do cinema internacional.

Hoje, os nomes mais conhecidos do cinema brasileiro, fora do País, são os de Walter Salles, Fernando Meirelles e José Padilha. Não por acaso, os três conduzem carreiras internacionais e não têm mais filmado no País.

No tempo do Cinema Novo o tipo de aproximação foi diferente. Fez-se pelo campo da amizade e da afinidade político-estética com críticos e diretores europeus. Esse relacionamento era estratégico. Era a porta de entrada do cinema brasileiro na Europa. E também dava visibilidade aos filmes no próprio Brasil, cuja mentalidade é bastante suscetível ao que dizem de nós lá fora. É assim até hoje.

Dessa forma, pode-se acompanhar a importância que os cineastas davam à presença brasileira nas mostras e festivais, bem como às matérias publicadas em revistas de prestígio como os Cahiers du Cinéma ou Positif. Pode-se ler o quanto era precioso esse intercâmbio na correspondência ativa e passiva de Glauber Rocha reunida por Ivana Bentes em Cartas ao Mundo (Cia das Letras). Já o crítico Alexandre Figueroa analisou esse intercâmbio em seu livro Cinema Novo: a onda do jovem cinema e sua recepção na França (Papirus Editora), mostrando como as afinidades entre diretores e críticos brasileiros e seus congêneres franceses facilitou a repercussão dos filmes no continente europeu, na França em particular.

Em época menos ideológica, como a nossa, a tendência é que afinidades desse tipo não surtam o mesmo efeito. Mesmo porque não existem. Desse modo, políticas mais ativas, como as da Ancine, devem se desenvolver em torno da qualidade estética de filmes que possam também sensibilizar o público estrangeiro. Não adianta mostrar obra que gira em torno do próprio umbigo do realizador.

Os dez primeiros filmes selecionados trazem alguns nomes conhecidos, e que justamente transitam nesse campo da integridade artística porém com respeito ao público. São eles Os Amigos, de Lina Chamie, Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro, Entre Vales, de Philippe Barcinski, Estação Liberdade, de Caito Otriz, A Gente de Aly Muritiba, A Montanha, de Vicente Ferraz, Uma Passagem para Mário, de Eric Laurence, Riocorrente, de Paulo Sacramento, Rio Cigano, de Julia Zakia e Tatuagem, de Hilton Lacerda.

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