Cine PE 2016: Danado de Bom
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Cine PE 2016: Danado de Bom

Luiz Zanin Oricchio

07 de maio de 2016 | 18h30

joaosilva

RECIFE – Danado de Bom faz jus ao nome. É puro prazer e emoção esse resgate do compositor João Silva, parceiro talvez menos conhecido de Luiz Gonzaga com quem fez cerca de 100 canções. Assinado por Deby Brennand, o filme é um mergulho na arte musical popular brasileira, a partir de um personagem e tanto.

O próprio João vai contando sua vida, da infância paupérrima em Arcoverde (PE) a ida ao Rio de Janeiro para tentar a carreira artística. Lá, conhece Luiz Gonzaga e tem início a história da parceria. Felizmente, além de depoimentos e entrevistas, há muita música no filme, algumas recriadas por vários músicos. Caso de Pagode Russo, interpretada pelo próprio compositor, mas também por Elba Ramalho, Lenine e outros. O filme, segundo a diretora, levou oito anos para ser feito. “Ele dava um certo trabalho e, quando ligava a câmera, só fazia gracinhas”, diz. Em off, falava sério. Mas, aos poucos, a confiança foi se estabelecendo e o filme começou a nascer. João é uma força da natureza, autodidata, e aprendeu a ler e escrever sozinho. Enfim, um caso típico do talento artístico brasileiro.  

“João faleceu em 2013 e não viu o filme pronto”, diz a diretora, emocionada. “Eu só queria mostrar quando estivesse pronto e ele acabou não vendo nada, lamenta.”

Danado de Bom é muito emocionante e não apenas por seu aspecto musical. Traz à luz um personagem que, por seu talento, consegue sair da miséria e tornar-se um grande artista popular, embora ainda pouco reconhecido – muitas de suas músicas são atribuídas a Luiz Gonzaga, quando, na verdade, são parcerias entre os dois. João é um desses milagres do Brasil, capaz do pior e do melhor. O melhor, com certeza, é o povo brasileiro, e digo isso sem qualquer populismo. O pior, bem, vocês sabem.

Curtas – Maria (PE), de Carol Correia. Os dois tempos da vida de uma prostituta, na mocidade e na maturidade. Nesta, é vivida por Marcélia Cartaxo. Bom, sensível, talvez as vezes um pouco redundante em sua narrativa.

Gosto de Carne (PE), de Álvaro Severo e Everton Maciel. Um dos diretores disse no palco que o objetivo era chocar o espectador. “Tirá-lo da zona de conforto”, um desses insuportáveis clichês contemporâneos. Bem, para tanto, usam cenas de matança de bois e outros animais, cujas carnes chegarão aos restaurantes. No fundo, é para dar dor de consciência a cada vez que você for comer uma picanha. Mas não passa disso.

Redemunho (PB), de Marcélia Cataxo. O melhor da noite foi esse belo curta, de tom viscontiano, dirigido pela atriz e cineasta Marcélia Cartaxo (de A Hora da Estrela). Um filho dialoga com a mãe e a reprova por ter preferido um irmão, já morto. Este filho também se casou e foi abandonado pela mulher, que, supõe, fugiu com ciganos. O ambiente é decadentista e trágico. Há um velho piano, que a mãe toca e que foi trazido da Europa pela família. Bem dirigido e interpretado, retrata um sertão profundo e talvez mítico. Feito de lembranças, ressentimentos, saudades de tempos idealizados. Um belo trabalho, um dos melhores curtas do festival.