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Cine PE 2013 Um balanço dos curtas-metragens (1)

Luiz Zanin Oricchio

05 de maio de 2013 | 13h52

Uma boa seleção de curtas este ano no Cine PE. Alguns repetidos de outros festivais, é verdade, mas outros, 100 % inéditos. Destaco alguns.

Íris, de Kiko Mollica, com roteiro de José Roberto Torero. Na verdade, segundo me disse o Torero, baseado num pequeno conto de sua autoria. Não conheço o texto. Mas o filme é ótimo. Trabalha todo o tempo com a câmera subjetiva de um personagem deficiente visual e seu relacionamento com a mulher. Ousadia de câmera de Kiko. Ironia e surpresa no texto sempre criativo do Torero. Uma ótima mistura.

Urânio Picuí, de Antonio Carrilho e Tiago Melo. Poderiam ter feito um documentário careta sobre a exploração de material radioativo em Picuí, na Paraíba pelos americanos, durante a 2ª Guerra. Ao contrário, transformam essa visita ao local numa explosão (nuclear) de criatividade audiovisual, valorizando os personagens, mesclando depoimentos a material de arquivo (composto por documentários mas também por filmes de ficção, como O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston). A fotografia é sensacional. A realidade em si já é interessante. Quando você tem um olhar original sobre ela, tudo fica melhor ainda.

Três no Tri, de Eduardo Souza Lima. É o que também se pode dizer de Três no Tri, o amoroso “filme sobre uma foto” realizado pelo famoso ZéJosé, um torcedor do Flamengo como poucos. Zé tem uma visão profunda do fenômeno futebolístico e encontrou nessa foto emblemática um mote perfeito para desenvolver suas ideias a respeito. Qual é a foto? A comemoração do gol da virada do Brasil sobre a Checoslováquia na Copa de 1970. Nela estão Pelé (o autor do gol) saltando de contente, tendo ao lado Tostão e Jairzinho. A foto é uma ilustração perfeita do que Cartier-Bresson chamava de “instante decisivo”. Aquele momento em que se capta o movimento e ele se torna representativo e emblemático de todo o seu contexto. A foto, de Orlando Abrunhosa, teve destino curioso. Foi pirateada e colorizada (o negativo original é P&B) pela francesa Paris Match. Foi utilizada pela ditadura militar brasileira e seu “Brasil Grande”, como emblema das três raças: o negro Pelé, o branco Tostão, o mulato (forçando um pouco a barra) Jairzinho. Por fim, do documentário, emerge a figura de Abrunhosa, um fotógrafo dos tempos românticos, que tinha como grande ambição na vida…ser cantor. Entremeadas às imagens, cenas da construção do novo Maracanã, estádio que não convence a muitos torcedores. Em especial àqueles que entendem o futebol como arte do povo e dele indissociável. “A atual elitização do futebol está acabando com a seleção brasileira, coisa que a ditadura não conseguiu fazer”, diz ZéJosé. Com toda a razão deste mundo.

Premiação dos curtas

Curtas-Metragens (Brasil):

Linear (SP) – melhor filme, edição de som (Nick Graham-Smith)

O Fim do Filme (SP) – Direção (André Dib), atriz ( Gabriela Cerqueira), ator (Gabriel Bodstein), Prêmio do Publico, Prêmio Canal Brasil (Aquisição no valor de R$15 mil).

Iris (SP) – Prêmio da Crítica, roteiro (José Roberto Torero)
A Galinha que Burlou o Sistema : Fotografia (Cauê Laratta), montagem (Alison Zago)

A Guerra dos Gibis (SP) – Prêmio ABD-Pernambuco, melhor Direção de Arte (Natalia Vaz )

Aluga-se (SP) – Trilha Sonora (Sergio Kafejian)

“Sagatio, Histórias de Cinema” (PE) – Menção Honrosa

Curtas-Metragens (Mostra Pernambuco):

“Entre, Lua, a Casa é Sua” – melhor filme (sobre Luiz Gonzaga)

Os Silenciados não Mudam o Mundo – Menção honrosa do Juri Oficial e Prêmio ABD-PE

(A continuar)

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