Cine OP. ‘Escola de Cinema’ e a figura tutelar de Paulo Emilio
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cine OP. ‘Escola de Cinema’ e a figura tutelar de Paulo Emilio

Escola de Cinema, documentário de Angelo Ravazi sobre a ECA ouve grandes professores como Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet e destaca a centralidade de uma figura como Paulo Emilio Sales Gomes

Luiz Zanin Oricchio

25 de junho de 2017 | 11h54


OURO PRETO/MG. Para uma mostra cujo foco é a preservação, a Cine OP não deixa de trazer boas novidades. Uma delas, sem dúvida, Escola de Cinema, longa documental de Ângelo Ravazi sobre a Escola de Comunicação e Artes da USP. Escola na qual o próprio diretor estudou e, portanto, da qual se sente próximo.

Ele faz uma aguda prospecção do que a escola foi – e é – ouvindo alguns dos seus professores e alunos de primeiros tempos, como Carlos Augusto Calil, Jean-Claude Bernardet, Ismail Xavier, Maria Rita Galvão, Maria Dora Mourão, Carlos Roberto de Souza, e os cineastas André Klotzel e Alain Fresnot, que passaram por seus bancos. Nomes familiares a todos os que se interessam pelo cinema brasileiro, sem dúvida.

No cerne de tudo, aparece a figura tutelar de Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977) que, depois da experiência na UnB, abortada pelo golpe de 1964, voltou para São Paulo e instalou-se na ECA, onde formou toda uma dinastia.

Na minha maneira de ver, o filme adota um tom bastante adequado para tratar da figura de Paulo Emilio, que, como todos sabem, virou um totem do pensamento cinematográfico brasileiro.

Ora, ser um totem deve ser muito bom, mas tem seus inconvenientes. Por exemplo, limam-se todas as suas arestas, porque estas não convêm a ídolos. E, pior, quanto este totem situa-se no âmbito intelectual, sua obra vira uma espécie de Sagrada Escritura, impossível de ser contestada. A tal ponto que já não precisa ser lida, pois torna-se uma verdade estabelecida, à qual se adere ou se refuta, sem maiores considerações ou meios termos.

Pelo contrário, em Escola de Cinema, a figura de Paulo Emilio resssurge, pelos depoimentos de seus amigos, antigos alunos ou colegas, de maneira mais polifônica e portanto mais rica. Suas posturas e textos mais polêmicos são recontextualizados – o que significa dizer que readquirem vida e deixam de ser peças de um imaginário museu intelectual.

Pelo que se sabe, e que se infere lendo-se seus textos, Paulo Emilio foi tudo menos um dogmático. Suas aulas, palestras e que escrevia, o conjunto do seu legado, vem recheado de paradoxos, ambivalências e um sentido forte da ironia. Incita o pensamento e não o paralisa diante de verdades estabelecidas.

Das conversas com gente como Ismail, Bernardet, Calil, e outros emerge também um Paulo Emilio que não pensa como um ser isolado, mas que é parte de uma família intelectual, composta por nomes como Ruy Coelho e, em especial, Antonio Candido Melo e Souza. Candido, falecido há pouco, e que era o último remanescente da “geração Clima”, alusão à revista que fundaram nos anos 1940, aparece em sua centralidade – até mesmo para que se compreenda melhor o pensamento de Paulo Emilio. Não seria a primeira vez em que se aproxima o pensamento do autor de Formação da Literatura Brasileira e o do Cinema: uma Trajetória no Subdesenvolvimento. Mas, com o passar do tempo, essas ligações como que se desfazem e se tornam ocultas e esquecidas. Fazem parte, porém do que de melhor deixou uma história das ideias no Brasil, ao longo da segunda metade do século 20.

Por exemplo, Ismail Xavier conta que um dos cursos que fez com Candido serviu de matriz e influência consciente para tudo aquilo que veio a fazer em sua própria vida e pensador do cinema.
De qualquer forma, essa grande família intelectual é também a nossa, a de todos que estudaram ciências humanas na USP, mesmo quando esses grandes professores já haviam deixado de lecionar. Somos todos tributários de suas ideias, saibamos ou não, estejamos conscientes ou não deste fato. Seria melhor, portanto, tornarmos consciente essa rede de influências, essa matriz de um pensamento social e cinematográfico que ainda é o nosso.

Tornar tudo isso explícito, assim como refazer os sonhos políticos, desilusões e derrotas de uma geração privilegiada são os méritos deste Escola de Cinema. Filme que, espero, seja amplamente discutido nos próximos tempos, pois traz implicações importantes para o pensamento cultural do Brasil, em especial neste tempo de penúria, ética e mental.

Tendências: