Cine OP. A questão indígena e o desarquivamento de Alice
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Cine OP. A questão indígena e o desarquivamento de Alice

Festival de Ouro Preto abre com homenagens a pesquisadores, relembra a grave questão indígena e exibe documentário sobre Alice Gonzaga e seu incrível arquivo sobre cinema

Luiz Zanin Oricchio

23 de junho de 2017 | 12h49

 

 
OURO PRETO. Bonita a noite de abertura no Cine Vila Rica, com destaque para as apresentações do Coletivo Negras Autoras e da índia Avelin Buniacá Kambiwá. Como a temática deste ano gira em torno da pergunta“quem conta a História do país?”, uma fala foi muito oportuna foi a de Para Yxa Pi, que recebeu o Troféu Vila Rica: “No Brasil, todos temos sangue indígena – nas veias, no coração ou nas mãos. Qual é o seu caso?”

Houve esse tom político na abertura, com falas contra o desmanche da cultura nacional e da continuação do genocídio indígena, graças aos avanços da bancada ruralista no Congresso. No momento em que a Noruega corta verbas destinadas ao Brasil para o combate ao desmatamento da Amazônia, pelo não cumprimento de políticas de preservação, nota-se como todos esses temas são interligados, importantes e urgentes para um país que está sendo depredado enquanto a guerra política segue seu curso.

Depois das homenagens ao pesquisador Antonio Leão e à montadora Cristina Amaral, houve a projeção do documentário Desarquivando Alice Gonzaga, de Betse de Paula.

Alice, que está em Ouro Preto, é presença frequente nos festivais brasileiros. Sempre a conhecíamos como a “dona da Cinédia”, a empresa cinematográfica herdada de seu pai, o cineasta e produtor Adhemar Gonzaga. O que o filme nos revela é a face arquivista de Alice, obsessiva colecionadora de documentos que acumula nos escritórios da empresa, em Jacarepaguá. Segundo ela, que está lépida e vivaz em seus 82 anos, arquiva papelada desde os seis anos de idade, quando começou a ajudar o pai.

O doc é muito agradável e, como uma arquivista é uma colecionadora de memórias, passa em revista toda uma fase do cinema brasileiro, com nomes como, além do próprio Adhemar Gonzaga, Mário Peixoto e Edgard Brasil (de Limite), Humberto Mauro, de Ganga Bruta, e Grande Otelo, em seus primeiros papéis no cinema. Sem contar o fabuloso dueto das irmãs Aurora e Carmem Miranda em Alô Alô Carnaval, de Gonzaga, cantando As Cantoras do Rádio.

Alice Gonzaga, bem entrevistada por Betse, que mantém presença discreta no filme, revela-se uma cicerone das mais desembaraçadas sobre a história do cinema brasileiro e da sua própria família. Fala sem disfarçar do que gosta e de que não gosta. E conta uma história que é das mais apropriadas para um festival de cinema cujo foco é a preservação. Diz ela que um dia perguntou ao pai sobre o paradeiro de determinado filme e, impaciente, Adhemar lhe teria respondido que isso não interessava; estava preocupado com o próximo projeto e não com velharias. Com o futuro e não com o passado.

Já perto do final da vida, ele muda de ideia. Diz que seria preciso recuperar tudo, pois ninguém podia adivinhar a quantidade de esforço presente em cada uma daquelas antigas películas que haviam produzido. “Acho que daí me meio o impulso para a recuperação de todo o nosso acervo”, diz Alice.

Bonita homenagem à memória cinematográfica, por meio de uma de suas personagens mais atuantes, Desarquivando Alice Gonzaga é aquele tipo de filme que cumpre muito mais do que promete de início. Uma bela surpresa.

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