Cine OP 2022: Lições de transgressão em São Paulo Hi-Fi e Os Primeiros Soldados
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Cine OP 2022: Lições de transgressão em São Paulo Hi-Fi e Os Primeiros Soldados

Luiz Zanin Oricchio

26 de junho de 2022 | 15h21

 

OURO PRETO – Uma bela sessão dupla ontem na Cine OP com São Paulo Hi-Fi, de Lufe Steffen, e Os Primeiros Soldados, de Rodrigo de Oliveira. Temáticas afins, filmes a serem vistos em continuidade, conforme sacou a programação do festival. 

São Paulo Hi-Fi é um doc prospecção da noite gay paulistana entre as décadas de 1960 e 1980. Usa um pouco de material de época, mas concentra-se mais nos depoimentos de quem viveu aquele período, definido pela maioria como de “glamour e alegria”. 

Nem tudo são flores (nunca é), pois afinal o Brasil vivia sob uma ditadura militar que, além de cassar os direitos políticos das pessoas, também era chegada a cruzadas moralistas. Dessa forma, gays, travestis, transformistas não eram exatamente benquistos ao regime. No entanto, tiveram a capacidade de fazer de São Paulo uma festa, pelo menos no nicho em que se moviam. Em geral nas ruas do centro da cidade, na Galeria Metrópole, em bares famosos como o Ferro’s e boates notórias, como a Medieval, com seu visual kitsch. 

As histórias são interessantes, narradas de maneira inteligente, por protagonistas como Celso Curi, James Green, Elisa Mascaro, Kaká Di Polly, Gretta Starr e João Silvério Trevisan.Como aquela que alguém se lembra de ter alugado um caminhão de mudanças da Granero para transportá-la até a porta da boate. Chegar sozinha, jamais. 

A festa termina, ou pelo menos se tolda de dor e morte com a chegada da aids, que faz muitas vítimas, espalha o pânico e ajuda a fortalecer os preconceitos da sociedade com sua tarja de “peste gay”. 

No início de Os Primeiros Soldados, vemos a filmagem de um combatente solitário, morrendo de fome, e que se diz disposto a cortar e comer uma parte do próprio corpo para sobreviver. Metáfora do que virá. Essa menção longínqua a Macunaíma dá um tom enganoso a essa primeira sequência. Depois do início fantástico, entramos na narrativa mais realista em que o jovem Suzano (Johnny Massaro) volta da França para se reencontrar com sua irmã (Clara Choveaux), uma enfermeira. O ano é 1983 e a cidade é Vitória, no Espírito Santo. 

Suzano sente que algo estranho acontece em seu corpo. Junta-se a Rose (Renata Carvalho) e Humberto (Vitor Camilo), também doentes, vítimas desse invasor do qual não se sabe muita coisa, a não ser que é fatal. Tentam uma cura (física e espiritual) no ambiente retirado de um sítio. E se o sofrimento for demasiado, contam com uma saída. 

Senti uma certa estranheza ao mergulhar na narrativa – e digo isso no sentido positivo, do “estranho” (Unheimlich) freudiano, que nos impacta, descentra e serve de estímulo à imaginação. Há um peso emocional que ronda os personagens em seu confronto com a expectativa da morte, num ambiente preconceituoso e pouco propenso à solidariedade. No entanto, em meio à dor, há a busca da alegria e da celebração. Vida confronta-se com a morte e, desse embate, vem-nos a sensação de deslocamento tão desconfortável quanto necessária. Só assim avançamos no conhecimento e na empatia. 

Esse me pareceu o sentido maior do filme, ao buscar o valor da vida em seu extremo, evitando tanto a culpabilização quanto a autopiedade. Viver não é de brincadeira, como expressam Mascaro, Choveux e Renata Carvalho em particular. Esse filme de sentimentos, muito bem pensado em seus diálogos e mise-en-scène, nos conquista e nos traz para seu lado – de modo suave porém firme. 

 

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