Cine Holliúdy, ou o tal do cinema popular
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cine Holliúdy, ou o tal do cinema popular

Luiz Zanin Oricchio

14 de novembro de 2013 | 23h41

Mais que fenômeno (ainda) regional, Cine Holliúdy serve de mote para discutir o que pode ser o cinema popular brasileiro. Não o cinema popularesco, ou o cinema clone da TV, que já conhecemos muito bem, mas o autêntico cinema saído das raízes populares.

E esta é uma primeira chave para decifrar os até agora 450 mil espectadores de Cine Holliúdy, ou seja, a autenticidade. Aquela impressão de que, através do artifício do cinema, somos levados ao encontro de algo de fato existente, que fala diretamente às gentes sem intermediação da publicidade. No limite, o autêntico é uma utopia, mas nele nada parece imposto ao nosso olhar.

Mesmo que, e talvez até por isso mesmo, o diretor Halder Gomes use elementos de paródia e caricatura em uma história que, como ele mesmo diz, tem também muito de autobiográfica.

Em meio à saga do herói Francisgleydisson (Edmilson Filho), que sonha em abrir um cinema em Pacatuba para exibir seus filmes prediletos de artes marciais, há outros personagens de nomes pitorescos como Valdisnei, Whelbaneyde, trilha sonora brega e a presença no elenco do impávido cantor e humorista Falcão, cearense como a história, o personagem e o diretor.

Aliás, os diálogos vêm em “cearencês” e por isso legendados em português. Não apenas para serem compreendidos em outras regiões do país. A própria legendagem já é um elemento cômico interno, uma private joke local como descobre quem assistiu ao filme no Ceará e percebe como o público se diverte com isso. A súbita consciência de que se fala ali um idioma brasileiro cheio de regionalismos e de sabor único funciona como forma de identificação. E de comicidade – “eles só nos entendem com auxílio de legendas”. Não é tanto assim, mas a função da caricatura é exatamente essa, destacar o que está invisível através do exagero.

Além do mais, Cine Holliúdy funciona como uma espécie de Amarcord do diretor. Nascido ele próprio no interior do Ceará, tornou-se lutador de artes marciais e trabalhou como dublê em filmes desse gênero em Los Angeles. Na Hollywood real, aprendeu os macetes do fazer cinematográfico, que agora aplica em seu filme. Conscientemente ou não aplica uma das armas letais das antigas chanchadas, que parodiavam as produções dominantes para encontrar um espaço de mercado entre elas. Basta lembrar de Matar ou Correr, Nem Sansão nem Dalila ou O Homem do Sputnik, por exemplo.

Na verdade, o longa-metragem Cine Holliúdy é o desenvolvimento de um curta-metragem que Halder Gomes exibiu em dezenas de festivais de cinema pelo País. O sucesso do curta levou-o à criação do longa que, de fato, é outro filme. Se o curta é direto, o longa às vezes exibe problemas de roteiro e talvez de montagem, o que às vezes complica o acompanhamento da trama.

Cine Holliúdy se apoia numa trama familiar, em que o pai procurar inocular no filho o seu amor pelo cinema. Isso numa época em que a exibição em sala cinematográfica recua num sertão já modificado em seus hábitos pela presença da televisão. Há esse traço de resistência neste filme que pode ter e tem suas irregularidades, mas cuja sinceridade, picardia e amor pelo cinema redime de muitas faltas.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: