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Cine Ceará: o poder sem limites

Luiz Zanin Oricchio

26 de junho de 2010 | 10h33

Uma noite de homenagens e bom cinema marcaram o início do 20.º Cine Ceará. A atriz Sonia Braga, caindo de chique com seu longo vermelho, entregou um troféu ao ator Mauro Mendonça, seu parceiro de elenco em Dona Flor e Seus Dois Maridos, o maior sucesso de bilheteria do cinema brasileiro até hoje. Também recebeu um troféu Mucuripe o diretor peruano Francisco Lombardi, o mais importante do seu país e que ganha, durante o festival, minirretrospectiva de sua obra. Após as homenagens, viu-se o filme, o primeiro dos concorrentes da Mostra Competitiva de longas: O Amor e Outros Demônios, que Hilda Hidalgo adaptou da obra homônima de Gabriel García Márquez.

Foi uma noite interessante no velho Cine São Luiz, agora rebatizado como Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro, no Largo do Ferreira, centro de Fortaleza. Sonia, animada como sempre, deu autógrafos, posou para fotos e subiu ao palco para entregar diplomas a garotos que haviam feito um curso de cinema na Casa Amarela, um anexo da Universidade Federal do Ceará. Foi emocionante vê-la ao lado do parceiro de Dona Flor, filme de 1976. Nele, como se lembra, Sonia vive a personagem título, e Mauro, o marido certinho, Teobaldo Madureira, que divide a esposa com o jogador e bon vivant Vadinho, interpretado por José Wilker.

Francisco Lombardi recebeu seu prêmio das mãos do ator Nelson Xavier e lembrou das inúmeras vezes que trouxe seus filmes a festivais brasileiros, em especial ao de Gramado, onde esteve com Pantaleão e as Visitadoras, Sin Compasion e Bajo la Piel. O que Lombardi não disse no palco, mas falou em conversa ao Estado, foi que esteve outras vezes no País em um tipo de missão diferente – futebolística para ser preciso. Lombardi é, ou era até há três anos, um curioso caso de dublê de cineasta e dirigente esportivo. Era cartola do Sporting Cristal, um dos times mais populares do Peru e aqui esteve para competições e para contratar jogadores. Lembra uma passagem triste, “quando perdemos a decisão da Libertadores da América para o Cruzeiro, em Minas Gerais”. Lombardi deixou de ser um profissional do futebol, mas continua boleiro de alma. Não aceita qualquer compromisso em horário dos jogos da Copa do Mundo, embora seu país não esteja entre os sul-americanos concorrentes.

Mordida de cachorro. Após a cerimônia de abertura, rolou o filme que é, diga-se, uma boa surpresa. Não é nada fácil adaptar para a tela a obra de García Márquez, ainda mais quando se é uma diretora estreante, como a costa-riquenha Hilda Hidalgo. Mas ela deu conta do recado. Capta com sensibilidade o espírito da obra de Gabo e constrói um belo filme sobre o amor e a opressão. Filmada na Colômbia, a história de época fala de uma garota mordida na praça por um cão e que se vê internada num convento sob suspeita de estar possuída pelo demônio. Um jovem padre espanhol é incumbido de praticar o exorcismo.

García Márquez ouvira falar do mito da menina dos longos cabelos vermelhos quando foi cobrir, como repórter, a demolição do antigo Convento de Santa Clara. Quarenta e cinco anos depois, em 1994, Gabo misturou fatos à imaginação e escreveu esse romance, uma espécie de O Padre e a Moça caribenho e ambientado na época da inquisição. Hilda opta por uma abordagem intimista e intensa, privilegiando closes para expressar os sentimentos dos personagens. O filme tem andamento lento, solene, ecoando talvez influências de Andrei Tarkovsky, entre outras. A história fala de repressão sexual, do poder da Igreja e na verdade o de qualquer poder sem limites em esmagar a vida dos indivíduos. Foi um belo começo, na verdade.



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