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Cine Ceará. Glauber e manequins

Luiz Zanin Oricchio

22 de junho de 2015 | 09h41

Claro que estas poucas linhas deverão ser desenvolvidas. Faço-as sob forma de notas rápidas, apenas para não perder pé do festival, que anda corrido, como todos.

Bem, já foram apresentados os dois brasileiros concorrentes – Real Beleza, de Jorge Furtado, e Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro, de Geneton Moraes Neto.

Real Beleza fala…de beleza. E de outras coisas também, como destaca seu diretor Jorge Furtado. A história? A de um fotógrafo descobridor de talentos femininos, João (Vladimir Brichta), que tenta convencer os pais de uma garota, Maria (Vitória Strada) a dar autorização para que ela siga carreira de modelo. A mãe (Adriana Esteves) não opõe resistência. Mas o pai (Francisco Cuoco) acha que a menina deve completar os estudos antes de decidir o que fazer da vida.
Furtado abre o leque de sua temática. A paixão do fotógrafo por sua modelo transforma-se em amor por uma mulher mais madura. A resistência do pai cede sob uma compreensão talvez baseada em sua cultura acumulada. Há uma sobreposição de referências, com o pai reticente desdobrando-se num Borges cego em sua biblioteca, etc. Esse antidrama, no fundo uma trama minimalista, não aponta para um desfecho, mas para um fluir, como acontece na vida, aliás.

As coisas vão acontecendo, simplesmente, sem qualquer necessidade de finais operísticos. Fica, no entanto, a impressão de algo não resolvido, de pouco aprofundado, como se a necessidade de se comunicar com um público cada vez mais arredio ao filme nacional tivesse imposto uma certa auto-limitação ao diretor. Enfim, saímos do almoço, por assim dizer, com certa fome.

O outro longa brasileiro, Cordilheiras no Mar, do repórter da Globonews Geneton Moraes Neto, tenta colocar em perspectiva o polêmico apoio de Glauber Rocha ao projeto de abertura política do general Ernesto Geisel. Como se sabe, essa posição de Glauber foi recebida com grande repúdio pela esquerda brasileira, empenhada na contestação do regime. O filme se baseia em falas e imagens do próprio Glauber, em dramatizações (nas quais entram os filhos do diretor, Paloma e Henrique, e do ator Claudio Jaborandi) e depoimentos de contemporâneos. Entre eles, Luiz Carlos Barreto, Arnaldo Jabor, Zelito Viana, Jaguar, Luiz Carlos Maciel, o ex-ministro de Geisel Reis Veloso, etc.
Claro que há dissonâncias (em especial de Jaguar e Zelito), mas o tom geral é mais para o afinado e conflui na incompreensão das esquerdas em relação aos propósitos de Glauber Rocha naquele momento. Longe de ser um traidor, como chegou a ser chamado, Glauber teria vislumbrado um caminho para a redemocratização e se decidido a apoiá-lo. A fonte dessa convicção teria sido uma conversa entre Glauber e o presidente deposto pelo golpe, João Goulart, no exílio. Glauber chegou a escrever uma peça sobre Jango.

De acordo com Geneton, em sua apresentação do filme, o Brasil vive hoje um momento de intolerância política muito grande, semelhante, nesse aspecto, àquele no qual brotou a hostilidade a Glauber. “O filme é um convite para pensarmos o Brasil”, diz. Sem ódio, de preferência, já que esse sentimento primário é de todo avesso ao debate político. No entanto, é bom notar, de saída, que Cordilheiras do Mar se presta, ou antes, exige, uma longa discussão. Apesar de algumas contestações internas, o tom dominante transforma Glauber em mártir e profeta incompreendido naquela quadra da vida nacional (início dos anos 1970. Geisel assume em 1974 e vai até 1979). Culmina com Reis Veloso afirmando textualmente, e repetindo: “A esquerda matou Glauber Rocha”.

Há controvérsias.