Cine Ceará: ‘Branco no Branco’ e o horror colonial
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Cine Ceará: ‘Branco no Branco’ e o horror colonial

Luiz Zanin Oricchio

10 de dezembro de 2020 | 14h28

Estamos por volta dos finais do século 19 e início do 20. Pedro (Alfredo Castro) é o fotógrafo que chega a uma propriedade na Terra do Fogo incumbido de registrar o casamento do mandachuva local, um certo Senhor Potter, e uma sinhazinha que não passa dos onze anos de idade. Nesse ambiente – gelado e também desértico – se passa Branco no Branco, concorrente chileno do Cine Ceará. 

Pedro é um fotógrafo das antigas e também um esteta. Impressiona-se com a beleza da ninfeta, o que o leva a fazê-la posar para fotos de sua coleção particular. As poses lembram as da Maja Vestida, de Goya, talvez uma das referências estéticas do diretor Théo Court, chileno criado na Espanha, em Madri. Deve ter feito muitas visitas ao Museu do Prado, a julgar pela beleza pictórica do registro fotográfico do filme. 

Não é uma beleza gratuita. Põe-se a serviço da obra. Em especial, quando exibe os grandes espaços vazios, que tanto têm de belos como de fantasmagóricos e assustadores. Parece uma natureza na qual o ser humano é um mero detalhe do qual se poderia prescindir. Ou os interiores também frios (e emocionalmente neutros), fotografados com pouca luz, ou luz natural, em diálogo com a pintura. 

No entanto, Mr. Potter e seu entourage não estão ali para brincar ou para curtir o panorama. Estão para fazer negócios, e levar a “civilização cristã” até ali. O que implica não apenas impor um modo de vida, mas dizimar os nativos da etnia Selk’nam, cujo idioma, somos informados depois, foi extinto. No filme, os habitantes originários foram interpretados por índios Mapuche, da Bolívia. 

O filme desvenda as várias camadas de opressão sobre as quais o processo colonial é construído: pedofilia, brutalidade com as mulheres, genocídio dos povos originários, desprezo pot culturas não-europeias, sede de lucro, gosto pela violência e sadismo. Tudo isso em nome do progresso civilizatório e, claro, de Deus.

 Court despe essas várias camadas de vestimentas do processo colonial e vai expondo seu cerne com mão firme. Tem consistência de ideias e domínio da forma. O que lhe valeu o troféu de direção da Mostra Orizzonti do Festival de Veneza, além do prêmio da crítica internacional dado pela Fipresci. 

Hoje o documentário autobiográfico A Media Voz (A Meia Voz), de Heidi Hassan e Patricia Pérez Fernández, encerra a Mostra Competitiva Ibero-americana de longas-metragens às 20h, no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, e no streaming do Canal Brasil (Canais Globo). 

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