Cine Ceará 2021: Bosco e a procura das raízes familiares
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Cine Ceará 2021: Bosco e a procura das raízes familiares

Luiz Zanin Oricchio

29 de novembro de 2021 | 12h49

 

FORTALEZA – A segunda noite de competição do Cine Ceará foi marcado pela beleza do documentário ítalo-uruguaio Bosco. O doc entra na conta dos filmes familiares de busca que, praticamente, já constituem um subgênero à parte, tanto têm sido praticados. Pôde-se especular sobre essa tendência contemporânea de ávida procura pelas raízes familiares. Pode, talvez, ser sintoma de um tempo em que a identidade torna-se algo fluído, uma carência e, portanto, precisa ser pesquisada e construída. Seja como for, esse desejo marca com força o audiovisual contemporâneo. 

No caso, a uruguaia Alícia Cano Menoni, através do seu avô, Orlando Menoni, de 103 anos, busca reconstruir a origem familiar italiana, vinda de uma pequena localidade na Toscana. Além de conversar com o avô, ela vai até lá e descobre esta que talvez seja uma das menores cidades do mundo. Bosco di Rossello, 13 (treze) habitantes! Encravada num vale, Bosco nunca foi grande, mas encolheu ainda depois que uma enchente destruiu suas plantações, lindamente fincadas nas escarpas, como ainda se vê por fotos e cartões postais. Agora a mata avança sobre ela e a devora. Mas ainda ostenta uma beleza austera da decadência. Seus habitantes, parentes de Alícia, mostram uma dignidade impressionante. 

Parece haver uma pergunta que serve de eixo espiritual ao documentário. Ela faz uma pergunta às velhas parentes: “O que é uma casa?” Elas são práticas. É onde se vive, onde se sente bem, etc. Habitam essas velhas casas, que nem podem ser vendidas porque ninguém as quer. Tudo é um pouco desolador. Mas também é uma raiz forte, sólida e antiga para quem vai em busca de sua identidade. 

Outro sentido da casa se vê quando o casal de avós uruguaios deixa seu lar, provavelmente porque, velhos demais, já são incapazes de cuidar de si mesmos. Orlando lembra que construiu a casa com suas próprias mãos. A esposa, movendo-se com um andador, esforça-se para beijar o chão daquele lar que está deixando. Uma cena pungente, de cortar o coração. E tanto mais porque diz respeito a todos nós. 

Estamos sempre em busca da nossa casa verdadeira, aquela em que somos nós mesmos, confortáveis em nosso presente e em paz com nossas raízes e passado. Mas a casa é sempre provisória. Ela passa, como nós passamos. Bosco é uma pequena joia. 

Curtas-metragens. 

O Durião Proibido, de Txai Ferraz. Em boa parte com uso de fotos fixas, o filme conta a história de um brasileiro na Tailândia que se apaixona por um rapaz local. O filme também ecoa uma questão de identidade, do não se sentir em casa (em lugar nenhum). Esse dépaysement radical é outro sintoma do nosso tempo, embora não seja nada novo. Cortázar o chamava de “a sensação de não estar de todo”. Interessante.  

Foi um tempo de poesia, de Petrus Cariry. Com material inédito em super-8, o cineasta recorda como na infância conheceu o poeta Patativa do Assaré, amigo do seu pai, o cineasta Rosemberg Cariry. A terna lembrança de infância, privando da intimidade de Patativa, prepara o adulto para o reconhecimento desse grande artista brasileiro, ressaltando o lado político de sua poesia, o que não é frequente nem banal. 

Ausências, de Antônio Fargoni. De gênero indefinível (ficção, doc de observação, fragmento memorialístico?), esse filme ambienta-se no interior paulista e mostra uma festa de família, na qual um garoto desaparece numa represa. A opção pela narrativa lacunar é radical. A tal ponto que não se pode lamentar não entendermos direito os diálogos (problema de captação de som?) porque, desconfia-se que mesmo se entendêssemos, pouco esclareceriam da história. 

 

 

 

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