Cine Ceará 2021: 5 Casas, ou a memória em questão
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Cine Ceará 2021: 5 Casas, ou a memória em questão

Luiz Zanin Oricchio

01 de dezembro de 2021 | 11h49


 

FORTALEZA – 5 Casas, de Bruno Gularte Barreto, é mais um exemplar de cinema memorialístico presente neste festival. Já vimos, só aqui no Cine Ceará, Bosco e, no encerramento, teremos o extraordinário Marinheiro das Montanhas, de Karim Ainouz. Busca, memória, restos – tudo isso tem sido material de construção de boa parte do documentário contemporâneo. 

Trata-se de uma longa e incipiente discussão, e não cabe aqui fazê-lo. O cinema da memória será uma tendência contemporânea, talvez datada, ou expressa apenas uma necessidade humana, a de tentar reconstruir o passado e dar um sentido à vida?

De qualquer forma, o diretor, ao voltar à sua cidade de origem, Dom Pedrito, no extremo sul do país, evoca uma questão de família, mas também aborda todo um contexto. São restos de lembranças, fotos, cartas, depositadas em caixas de papelão que o autor precisa abrir e, como madeleines proustianas, lhe desperta o mecanismo da memória. Lembrança da mãe, morta precocemente, e do pai. 

Mas é também o ambiente religioso, a intolerância homofóbica da pequena cidade (38 mil habitantes, hoje), a violência da especulação imobiliária que tenta despejar de sua casa a antiga professora de francês do diretor, o agronegócio que, com seus agrotóxicos, talvez seja responsável pelo alto número de casos de câncer na região – tudo isso aparece na contraluz desse filme inspirado. 

 

Assunto antigo. Clássicos como Nanook, o Esquimó, ou Aruanda, usam ficção para falar da realidade. Congo, de Arthur Omar, ou Roma e Os Palhaços, de Fellini, são “falsos” documentários. Falam da verdade, ao contorná-la, mas não têm compromisso com a realidade factual. Num tempo em que fake news ganharam foro de verdade, está mais do que na hora de os teóricos do documentário enfrentem essa questão: existe uma exigência ética no vínculo do documentário com a verdade ou tudo é livre, como convém para a arte? Não sei. 

De qualquer forma, Bruno classifica seu cinema como de “autoficção”. O estilo?, escola?, movimento? andou na moda na literatura. Refere-se a autobiografia ficcional, combinando assim dois termos heterogêneos. E colocando em xeque a noção de objetividade. Como se trata de cinema e não de literatura, essa ficção de si mesmo precisa encontrar seus meios audiovisuais. E, nesse sentido, o filme é bem sucedido. A metáfora é um retrato de garoto do diretor, com os olhos bem abertos. Ele imprime essa mensagem sobre um lençol que, balançando ao vento, produz uma bela impressão. Olhar do adulto sobre o olhar da criança – e mesmo assim, oscilante.

CURTAS

O Resto, de Pedro Gonçalves Ribeiro. Uma mulher descobre que, para o Estado, é considerada morta. Precisa percorrer um caminho burocrático kafkiano para provar que está viva. Ficção e realidade se misturam neste filme que é classificado, pelo diretor, como um “documentário híbrido”. É uma outra questão, não apenas do uso de ficção para fins documentais, mas documentários que se apresentam como tais e são, na realidade, ficções.

Sideral, de Carlos Segundo. Bastante inventiva essa ficção científica do Terceiro Mundo, que competiu no Festival de Cannes. O Brasil vai lançar um foguete tripulado e a expectativa do lançamento domina a nação. Enquanto isso, uma pobre mulher sobrecarregada se revolta. Não aguenta mais a dupla, ou melhor, tripla jornada. Faxineira durante o dia, encontra o serviço da casa para fazer, o marido para tomar conta e os filhos. Um dia ela se enche de tudo aquilo. E manda tudo para o espaço. O filme tem um lado humorístico e crítico. Muito legal. 

 

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