Cine Ceará 2020: Era uma Vez…na Venezuela
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Cine Ceará 2020: Era uma Vez…na Venezuela

Luiz Zanin Oricchio

08 de dezembro de 2020 | 12h28

Era uma Vez… Com essas palavras começam as fábulas. Talvez não seja diferente com este Era uma Vez na Venezuela, documentário indicado por seu país para disputar uma vaga no Oscar e concorrente de ontem no Cine Ceará 2020. 

Dirigido por Anabel Rodrigues, Era uma Vez na Venezuela participou do Festival de Sundance e foi sendo feito, ao longo de anos, para registrar mudanças numa localidade determinada. Trata-se de Congo Mirador, pequena comunidade aquática (sobre palafitas), no sul do Lago Maracaibo. Lá repousam as reservas petrolíferas da Venezuela, as maiores do mundo, segundo dados confiáveis da CIA. 

Acontece que, assentada sobre um tesouro, Congo Mirador é uma comunidade pobre, quase miserável. Em vídeo enviado ao festival para apresentar seu filme, a diretora foi enfática: “Congo Mirador fica na região das maiores reservas petrolíferas da Venezuela. Mas nem sempre as pessoas são beneficiadas pelas riquezas da região onde moram”. Verdade. 

Esses habitantes, morando em palafitas, sobrevivem basicamente da pesca. Acontece que essa região do lago vem sofrendo um processo contínuo de sedimentação, ou seja, de assoreamento. As águas são cada vez menos profundas, têm menos peixes e, portanto, menos meios de subsistência da população. Seria preciso um processo radical de dragagem. Mas dragas custam dinheiro. E esse material anda em falta numa Venezuela em meio a problemas políticos sem fim e prejudicada pela baixa do preço internacional do petróleo.   

Como documentário de observação, Era uma Vez…ouve a população. E também filma o meio ambiente. Registra que Hugo Chávez, cujo retrato se vê em toda parte, é um deus para a população, ou pelo menos para a maior parte das pessoas. Mas talvez seu sucessor, Nicolás Maduro, não seja tanto assim. Tanto que perdeu as eleições de 2016. Em Congo Mirador, também essa vitória da oposição foi festejada. 

Seja como for, entre apelos à continuidade da revolução bolivariana e o descaso das autoridades, a comunidade vai se esfarelando. Pessoas vão-se embora e o que fôra um dia o Congo Mirador vai virando ruína. As imagens falam. As casas que se deslocam sobre as águas, como barcos à procura de novo porto, são poéticas, e tristes. Assim como as imagens da antiga escola, sendo devorada pela ação do tempo e da natureza.  

Podem ser imagens concretas, algumas entre muitas que são escolhidas na mesa de montagem por quem faz o filme. Podem ser também uma metáfora do país atual. Anabel mora em Viena, na Áustria. Faz parte, como diz, da imensa diáspora venezuelana, mais de 5 milhões de cidadãos vivendo fora do país.  

 

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