Cine Ceará 2019: Greta e a coragem de Marco Nanini
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Cine Ceará 2019: Greta e a coragem de Marco Nanini

Filme dirigido pelo estreante Armando Praça baseia-se na peça Greta Garbo quem Diria Acabou no Irajá, e tem Marco Nanini em atuação magistral

Luiz Zanin Oricchio

06 de setembro de 2019 | 09h51

Marco Nanini e Denise Weinberg em Greta

FORTALEZA – O público do Cine São Luiz vibrou com Greta, último concorrente da mostra competitiva de longas-metragens. O que fala em favor do público, pois não se trata de filme fácil nem digestível. Baseado livremente numa peça famosa, Greta Garbo, quem Diria, Acabou no Irajá, o filme é dirigido pelo cearense Armando Praça e tem em Marco Nanini um intérprete corajoso e visceral, ainda que em chave minimalista. 

Nanini é Pedro, enfermeiro de um hospital público. Na necessidade de abrir vaga para uma amiga doente, Daniela (Denise Weinberg), não lhe ocorre nada melhor que dar fuga a um jovem prisioneiro, que estava algemado em seu leito. Leva o rapaz, Jean (Demick Lopes) para casa e…

A história é esse xadrez subjetivo/sexual em que o homem mais velho se apaixona pelo mais jovem, num jogo de sedução e submissão que sobe de degrau a cada sequência. Ambos estão bem, mas Nanini chega ao sublime com sua interpretação corajosa. Não teme a exposição do corpo e não foge às situações sexuais mais explícitas. Sentimos admiração por essa entrega total do ator consagrado a um diretor estreante em longas-metragens e fora do mainstream cultural do país. Sua perfomance enaltece no mais alto grau a profissão do ator, aquele que se doa ao seu papel, sem medir consequências. O beneficiado é o público. Diria que Nanini é favorito absoluto para o troféu de melhor ator na cerimônia de entrega de prêmios do Cine Ceará, esta noite, no Cine São Luiz. Após a cerimônia haverá a exibição de Pacarrete, do diretor cearense Allan Deberton, grande vencedor do há pouco encerrado Festival de Gramado. 

Nanini é o ponto alto de Greta, mas não se pode dizer que carrega o filme nas costas, pois o filme tem várias outras virtudes.  O resto do elenco funciona muito bem para o conjunto. De Denise Weinberg, que interpreta uma personagem transgênero a Demick Lopes, que constrói, com nuances, um bandidinho aproveitador, mas capaz de sentimentos. Outro destaque é Gretta Sttart, que interpreta Meire, uma amiga de Jean vinda de outros carnavais. 

Armando Praça põe tons soturnos na história. Trabalha com planos sempre muito fechados, com pouca abertura para a rua ou espaços mais amplos. A magnífica fotografia de Ivo Lopes Araújo aposta em tons escuros. Há muitas cenas no ambiente claustrofóbico do hospital público e também no pequeno apartamento de Pedro. Um resto da origem teatral do texto invade a adaptação cinematográfica da peça. Vez por outra vê-se a cidade pela varanda do protagonista, mas é pouco. Não há horizontes, assim como não parece haver escapatória para a vida de Pedro e dos outros personagens. Ele próprio é um homem envelhecido, na tentativa de segurar um jovem estróina que lhe escapa pelas mãos. Daniela é uma doente terminal e só pretende terminar seus dias com um mínimo de sofrimento. Jean não tem futuro, mas talvez a juventude o impeça de ver esse fato. Estão todos presos à armadilha de suas próprias solidões e das exigências da sexualidade e do afeto. 

Como a atriz sueca Greta Garbo, fetiche de Pedro, talvez desejassem apenas um pouco da paz que se encontra na solidão e no isolamento. Mas não podem dispensar a presença física uns dos outros. Dessa contradição – o desejo de estar consigo mesmo e a necessidade imperiosa da presença do outro – se alimenta o drama humano, expresso com tanta intensidade neste belo e dilacerado Greta. 

Curtas 

Rua Augusta 1029. Imagens da ocupação de um edifício em São Paulo. Toca no importante tema dos sem-teto nas grandes cidades, mas há uma sensação de déjà-vu em relação a outros filmes que se dedicam ao tema.

O Grande Amor de um lobo. Tem o frescor jovem das oficinas de cinema promovidas na Mostra de Cinema de Gostoso. Jovem sonha ser cineasta e roda seu primeiro longa, tornando-se também ator principal. Um bom início. 

Ilhas de Calor. Ambiente adolescente, com ensaios de performance preparativos para vida. O formato é interessante, mas não diz muito a que vem. 

Pop ritual. A proposta é política e espera expressar o horror contemporâneo através do cinema de gênero. Escorrega para o trash sem maiores consequências. 

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