Cine Ceará 2019: a saga esquecida dos Soldados da Borracha
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Cine Ceará 2019: a saga esquecida dos Soldados da Borracha

Documentário de Wolney Olivieira faz justiça aos milhares de brasileiros deslocados para a Amazônia para colher o látex usado na Segunda Guerra Mundial pelas forças norte-americanas

Luiz Zanin Oricchio

05 de setembro de 2019 | 08h05

 

FORTALEZA – Foi uma noite muito especial no Cine Ceará. O longa-metragem, apresentado fora de concurso, foi o cearense Soldados da Borracha, de Wolney Oliveira, diretor do festival. Dos quatro curtas da programação, três são produções do Estado: Oração ao Cadáver Desconhecido, Marco e Tempo do Olhar e o Olhar no Tempo. O único “estrangeiro” entre os curtas foi Marie, do pernambucano Leo Tabosa. Mesmo assim, esse filme tem o Ceará em seu DNA. Quem assina a fotografia é o craque cearense Petrus Cariry. E a história envolve uma viagem de Pernambuco em direção ao Crato, no Ceará. Portanto, uma noite 100% nordestina e, digamos, 90% cearense, num momento em que em Fortaleza se avaliam a força e a originalidade da produção cinematográfica do Estado. 

Soldados da Borracha mostra uma página muito esquecida da participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial. Oscilante entre a Alemanha e Aliados, Getúlio Vargas se decide enfim pelo apoio aos Estados Unidos em troca de vntgens financeiras para o país.  No acordo entre as duas nações, milhões de dólares aportaram no Brasil. Em contraparte, os Estados Unidos queriam borracha, matéria-prima crucial no esforço de guerra. Cerca de 60 mil brasileiros, de todas as regiões do país, mas a maioria nordestinos, foram enviados à Amazônia para a extração do látex. Foram-lhes prometidos boa paga, bom tratamento, transporte, hospedagem, atendimento médico e outras recompensas. O governo comprometeu-se a dar-lhes o mesmo status dos soldados da FEB, enviados à Itália. 

Nada disso foi cumprido, como contam alguns dos sobreviventes da campanha da borracha. Os sofrimentos enormes já começavam pela viagem complicada às regiões seringueiras. Chegando lá, era enfrentar jornadas de trabalho extenuantes, feras, mosquitos, malária, febre amarela, má-nutrição. Os cuidados médicos prometidos não existiam. A alimentação era precária. Os armazéns das fazendas, locais de compra compulsória, ficavam com a maior parte da paga dos trabalhadores. Dos 60 mil enviados à Amazônia, 30 mil morreram sem jamais retornar às suas casas. 

A profusão de material iconográfico apresentado pelo filme dá ideia de como a campanha da borracha foi importante para o Brasil de então, em 1943. Peças publicitárias sob a forma de cartazes, jingles, discursos nacionalistas de Getúlio – tudo isso convocava os soldados da borracha para sua participação no esforço de guerra, “em prol da civilização ocidental, da liberdade e da democracia”. 

O historiador e jornalista Lira Neto, autor de uma biografia em três volumes de Getúlio Vargas, lembra que o envio de tropas à Itália não era uma exigência dos Estados Unidos. Eles não queriam soldados mal treinados no front de batalha. Mas Getúlio fez questão de enviá-los porque isso aumentaria seu poder de barganha junto aos americanos. “Foi uso de carne humana, em troca de benefícios econômicos maiores”, diz o historiador. Mas, se as tropas eram dispensáveis, segundo a ótica dos gringos, a borracha era o fundamental. Sem ela, a indústria bélica não funciona. E o Brasil era o país para fornecer essa matéria-prima indispensável. 

O filme mostra de maneira clara: seja combatendo no inverno italiano, seja colhendo látex no calor infernal da Amazônia, o povo humilde, como sempre, foi usado como bucha de canhão do Estado brasileiro.

Alguns dos sobreviventes da saga da borracha ainda esperam pelo reconhecimento e pagamento de indenizações. Estas vieram sob a forma do que eles consideram como “esmola ou cafezinho de político”: 25 mil reais, quando a quantia pedida pelos advogados seria da ordem de 800 mil.

Essa história triste de injustiça é pontuada por alívios cômicos. Não que o riso seja buscado pelo diretor de maneira artificial. O humor entra com naturalidade na fala desses velhinhos e velhinhas maravilhosos, capazes de, em meio ao sofrimento, recordar histórias saborosas e rir-se da própria desgraça. São o que existe de melhor no Brasil. O pior você já sabe o que é e nem merece ser mencionado. 

  

 Curtas

Oração ao Cadáver Desconhecido, de Sávio Fernandes. Pai e filho encontram um corpo na mata e resolvem escondê-lo, por medo de problemas com a polícia. Mas o filho resolve enterrar o corpo, à revelia do pai e coisas estranhas acontecem. Uma tentativa de ficção científica que tem seu interesse. 

Marco, de Sara Benvenuto. Isadora, moça meio maluquete, volta à sua cidade natal e choca a família com seu comportamento. Filme de reconciliação, sem qualquer pieguice ou chantagem emocional. Bastante aplaudido. 

O Tempo do Olhar e o Olhar no Tempo, de Samuel Brasileiro. Uma poética incursão pela memória através dos olhos da avó do realizador, mostrando a sensibilidade depurada pelos anos ao contemplar antigas fotografias. 

Marie, de Leo Tabosa. Marie, personagem transgênero,volta à cidade natal para enterrar o pai. Descobre que o velho queria ser sepultado no Crato, Ceará, no mesmo túmulo da esposa. Marie e um amigo de infância resolvem levar o corpo numa picape, numa viagem de 600 quilômetros e muitas recordações. Filme sensível, límpido,emocionante, apesar de contido. Muito aplaudido. 

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