Cine Ceará 2018: ‘Petra’, uma tragédia em jogo de montar
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Cine Ceará 2018: ‘Petra’, uma tragédia em jogo de montar

'Petra', do catalão Jaime Rosales, propõe uma tragédia familiar em linguagem fragmentada que desafia o público

Luiz Zanin Oricchio

07 Agosto 2018 | 11h07

 

 

 

 

 

 

 

FORTALEZA

Petra, de Jaime Rosales, começa como um conto de Borges. Estruturado em capítulos, inicia a narrativa pelo segundo, omitindo o primeiro, que virá apenas mais tarde. Lembra um daqueles contos do mestre argentino, no qual ele reproduz um suposto manuscrito (fictício), do qual, avisa o narrador, “falta a primeira página”.

Em Petra, a narrativa prosseguirá por saltos, lembrando o procedimento de outro escritor, também argentino, Julio Cortázar, que, em sua obra máxima, O Jogo da Amarelinha (Rayuela), trabalha com várias possibilidades de leitura, inclusive a alternância de capítulos. Um jogo de montar e desmontar, a ser recriado pela inteligência/sensibilidade do leitor. E, no caso de Petra, do espectador.

Esse filme, de natureza, digamos, experimental (quer dizer, não convencional) foi apresentado na Quinzena dos Realizadores, do Festival de Cannes, e chega agora ao País.

Com tudo isso, deve-se dizer que sua história é das mais envolventes e não apenas um desafio intelectual. Trata-se de uma mulher, pintora, Petra (Barbara Lennie), que não sabe quem é o pai. Ela vai fazer uma espécie de estágio no ateliê de um artista plástico consagrado, Jaume (Joan Botey), casado com Marisa (Marisa Paredes). Jaume mantém um relacionamento áspero com seu filho, Lucas (Alex Brendemuhl). Eles moram num lugar paradisíaco, em Girona, na Catalunha.

Jaume mostra-se, ao longo dessa narrativa quebrada, um manipulador de escassa ética e um potencial destruidor de vidas.

Por seu lado, Jaime Rosales opta por uma filmagem rigorosa, uma câmera que escruta o ambiente e foi tachada de “exibicionista” por alguns críticos presentes ao evento. Não concordo. Os movimentos de câmera (em especial plano sequência) são funcionais. Estão a serviço do que se pretende dizer. Ele apenas usa a linguagem cinematográfica para alternar o que fica no campo e o extra-campo, criando de maneira inusitada uma tensão, mesmo ao filmar paisagens belíssimas, que, dessa maneira, parecem ameaçadoras. Soube agora que foi feito em 35mm. 

O fulcro, o centro de gravidade da história, é o peso trágico. A ideia de que pessoas podem ser manipuladas e, eventualmente, levadas à morte, por alguma espécie de deus zombeteiro, que se vale de enganos para enlouquecer os humanos frágeis. Um belo filme, de conotação feminista, já que os homens ou são patifes ou frágeis demais para sustentar um relacionamento durável ou mesmo saudável. Restam as mulheres e sua cumplicidade final.

Um tanto apaziguante, para concluir. O filme apara algumas possíveis dificuldades, tanto na forma como no conteúdo. Na forma, ao não radicalizar o procedimento assimétrico da narrativa. No conteúdo, ao evitar aspectos mais espinhosos, como o incesto, passar de raspão pelas valas comuns do regime fascista, e realizar uma espécie de happy end feminista.

Petra foi o terceiro longa-metragem numa competição que, até agora, apresenta boa qualidade. Os dois primeiros, O Barco e Cabros de Mierda, não decepcionaram – pelo contrário.

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Entre os curtas, chamaram a atenção, até agora, A Menina Banda, um estudo sobre a infância mais sensorial que narrativo, e Nomes que Importam, belo documentário sobre a importância do nome próprio no caso específico das pessoas transgênero.  

 

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