Cine Ceará 2018: Paz e Amor em meio à ditadura
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Cine Ceará 2018: Paz e Amor em meio à ditadura

Dois documentários foram apresentados na penúltima noite de competição, o brasileiro Anjos de Ipanema e o colombiano Senhorita Maria, as Saias da Montanha

Luiz Zanin Oricchio

10 Agosto 2018 | 12h57

 

FORTALEZA – O Brasil vivia o sufoco da ditadura, mas no trecho de praia em torno do Píer de Ipanema havia um território livre no País. Em meio à antiquada – e violenta e arbitrária – política oficial, vicejava a contracultura nativa, com livre troca de ideias, livre consumo de drogas e livre comportamento sexual. Não, não se trata de redundância do texto – o que lá se cultivava e, vale dizer, em outros lugares do País, era uma flor rara naqueles tempos, a liberdade. Esse é o tema do documentário de Conceição Senna, Anjos de Ipanema.  

“O que me fez contar a história foi uma certa nostalgia da época e este momento obscuro em que hoje vivemos”, diz a diretora. “Nossa geração já havia vivido um golpe e procurei os amigos da época, os que mantinham o sentimento do amor, da paz, que hoje fazem trabalhos comunitários, e cultivam o amor e solidariedade com os seres frágeis do nosso país.”

O filme trabalha com pouco material de arquivo e, basicamente, com depoimentos de personagens daquela época, início dos anos 1970.

Em termos esquemáticos, o Brasil havia passado os anos pós-golpe com relativa liberdade no âmbito cultural. Esta terminou com o AI-5, quando a ditadura se implantou de vez e mostrou suas garras. Havia a resistência armada, que acabou dizimada pelas forças da repressão e havia a resistência cultural, que muitas vezes também foi para o exílio, como são os casos notórios de Gil e Caetano e também de Chico Buarque, Glauber Rocha e outros criadores.

Claro que é um tanto mecânico dizer que à desilusão com a luta armada sucedeu-se a contracultura. Mecânico, porque ela estava já estava presente em outros países e, de certa forma, o Brasil a importou, como importa outros bens de consumo. O hippismo, a ideologia da paz e do amor, o uso das drogas como forma de expansão da consciência, o sexo livre – tudo isso eram manifestações jovens da época e ressoavam por toda parte, inclusive no Píer de Ipanema, em Arembepe, nas Dunas do Barato, as Dunas da Gal.

Esquematismo à parte, vivia-se (quem foi do tempo sabe) uma tensão permanente entre a resistência política “tradicional” e a contracultura, que era, sem dúvida, um outro tipo de resistência, porém bem mais tolerada pelo regime.   

O filme desenvolve-se na fala dos personagens (mulheres em sua maioria) e traz depoimentos interessantes, em que pese alguma autocomplacência, como a do grupo se apresentar como reserva de transgressão em um tempo careta, como é inegavelmente o nosso. Menos, menos…

Conceição refuta a pecha de alienados que a esquerda tradicional pregava no pessoal da paz & amor.

“A militância política estava presente em cada ato. Mas a nossa atuação era a cultura. A música dos Novos Baianos, Gal, os meninos Gil e Caetano, estavam em Londres. Não éramos alienados. Aquilo ali se tornou um refúgio. Muita música, muito teatro. E éramos vigiados, tinha gente dos órgãos de segurança tirando fotos.” Em certo momento, a atriz Sonia Dias diz: “a última ordem é dispersar.”

Sinal de que mesmo a guerrilha do Píer estava ficando perigosa.

Colômbia  

O colombiano Senhorita Maria, a Saia da Montanha, de Rubén Mendoza, foi o segundo documentário da noite.

Traz um personagem muito forte, a transexual Maria Luiza, que nasceu e vive no ambiente acanhado de um povoado rural, Boavita.  

“É um povoado muito conservador, muito religioso. De tal forma que chega a surpreender o fato de não terem matado uma pessoa tão perturbadora, para padrões locais, como Maria Luiza”, diz o diretor.

O filme é muito respeitoso com a personagem. Mostra-a no seu cotidiano isolado, em seu pequeno sítio, plantando ou fazendo a colheita, cuidando de animais. Não existe qualquer intenção de tratá-la como freak, ou de modo exótico, como foi acusado durante o debate.

“Esconder que ela é diferente no meio daquela comunidade seria mentir”, defendeu-se o diretor. “Ela é a pessoa mais só que jamais encontrei durante minha vida. Não tem um amigo, não tem um parente. Dessa forma, para sobreviver, achei que deveria ter uma profunda força interior.”

O documentário é hábil não apenas em perfilar um personagem, mas descrever, com sua câmera, todo o seu entorno. Sente-se no filme a religiosidade profunda do ambiente, em suas procissões, na adoração do Senhor morto, nas músicas de Sexta-Feira da Paixão tocadas por uma banda infantil. Uma das cenas marcantes é a Descida da Cruz de uma imagem de Cristo, um boneco articulado que depois é lavado pelas mulheres em sequência tão comovente como mórbida.

Há também depoimentos que veiculam o falatório da aldeia em torno de Maria Luiza. A de que seria fruto de uma relação incestuosa entre irmãos e teria nascido como um bebê provido de chifres e cauda. Por momentos se tem a impressão de estar num daqueles povoados da Idade Média, em que boatos de bruxarias acabavam em tortura e nas fogueiras da Inquisição.

De fato, estranha-se que, neste ambiente, Maria Luisa, que além de tudo sofre de epilepsia, esteja viva e sã. “A sua fragilidade é sua força”, constata o diretor. “Um terremoto derruba um edifício, mas poupa uma simples espiga de milho”, exemplifica. Maria Luisa e vista em sua profunda relação com a terra e no carinho com os animais. Sua presença emociona espectadores que veem o documentário de maneira desarmada. 

De fato, é preciso procurar muito pêlo em ovo para achar que Maria Luisa foi desrespeitada no filme.