Cine Ceará 2018: festival começa bem com o longa ‘O Barco’
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Cine Ceará 2018: festival começa bem com o longa ‘O Barco’

28º Cine Ceará começou com homenagem a Renato Aragão e a Tito Ameijeiras. Foi também apresentado o primeiro filme da competição, O Barco, do diretor cearense Petrus Cariry

Luiz Zanin Oricchio

05 Agosto 2018 | 12h34

‘O Barco’, de Petrus Cariry

FORTALEZA

O Cine Ceará começou com duas homenagens e um longa-metragem. Uma dessas homenagens estava programada – a de Renato Aragão, filho da terra, uma das glórias do Ceará, que se viu cercado de fãs no palco do cinema, onde foi recepcionado pelo ator cômico Fábio Porchat.

A outra, infelizmente, veio de improviso, in memoriam a uma das pessoas mais queridas do festival, o cineasta, ator e faz-tudo do cinema, Tito Ameijeiras (1944-2018), que havia falecido pela manhã, vítima de parada cardíaca.

Tito, argentino de nascimento, desempenhava diversas funções no festival, de organizador dos júris a tradutor nas coletivas de imprensa e debates. Era pessoa muito querida pelo bom humor, inteligência rápida, ironia sem maldade. Deixa atrás de si uma história muito rica, tanto no cinema como na política. Trabalhou com gente do calibre de Fernando Solanas e Octávio Getino. Fugiu da ditadura argentina e teve de sobreviver na brasileira. Cheio de amigos, logo arrumou emprego por aqui e continuou espalhando seu talento e bondade por um sem número de produções nacionais. Vai deixar saudades e fazer falta no mundo cada vez mais sem graça e sem afeto em que vivemos.

Tito Ameijeiras, uma vida dedicada ao cinema

E houve o filme, o belo O Barco, de Petrus Cariry, que tem como ponto de partida um pequeno conto do escritor cearense Carlos Emilio C. Lima, que esteve ontem presente à sessão no Cine São Luiz, no centro de Fortaleza.

A história é bastante alegórica. Uma mulher, Esmerina (Verônica Cavalcanti), mora numa praia isolada e tem 26 filhos. Cada um tem por nome uma letra do alfabeto. A letra A (Romulo Braga) é o filho que deseja romper o casulo e lançar-se ao mar aberto, onde está a “pesca grande”, mas também onde mora o perigo. Pedro (Nanego Lira), o marido de Esmerina, não fala desde que uma filha desapareceu no mar. Há um cego (Everaldo Pontes), que assume a função de sábio ou profeta da comunidade, uma espécie de Tirésias. E há Ana (Samya De Lavor), que chega do mar, sobrevivente de um naufrágio, contando estranhas histórias e seduzindo os homens em terra.

A história, como se vê, tem ares de fábula. Filmada na Praia das Fontes, em que as falésias compõem com o mar um cenário perfeito, fala de muitas coisas, entre elas da sexualidade, da opressão feminina, do desejo de ultrapassar limites e “fazer-se ao mar”, mesmo quando isso implica riscos e afastamento da zona de conforto. Afinal, se a pesca grande encontra-se além da linha do horizonte, a pesca pequena da orla parece suficiente para alimentar a família, como argumenta o Cego junto ao aventureiro A. Melhor ficar com o que já se tem. Só que, com esse conformismo, ninguém sai do lugar – indivíduos ou comunidades.

Há outro elemento, este bem real, lembrado por Petrus Cariry. “Durante as filmagens estava ocorrendo o processo de impeachment contra Dilma. Eu terminava a filmagem do dia e corria para o computador para ver o que estava acontecendo. Era muito angustiante”, diz.

De alguma forma, essa angústia passou para o filme, nas entrelinhas, se o termo cabe, reforçando a condição de opressão por que passam as mulheres. “O barco invadido, a opressão sobre aquela mulher que sobrevive ao naufrágio e chega à praia”, cita o diretor. De fato, ainda fica por estabelecer o quanto de misoginia, em paralelo a outros interesses, contribuiu para a deposição da presidente. Essa dúvida, de alguma forma, ressoa no filme.

Em termos de construção, O Barco apresenta elementos bastante fortes. As filmagens mostram rigor, inclusive na composição de cenas noturnas. “Só utilizei luz natural, iluminação de candeeiros e luz da Lua”, conta o diretor.

O som foi trabalhado de maneira incisiva, “para que o mar fosse também um personagem da trama”, e não apenas uma paisagem. “Timbres eletrônicos entram para criar a tensão”, diz o diretor.     

Dessa maneira, o filme flerta muito com o fantástico. É uma fábula. Porém referida ao real,  como todas as fábulas. Mas Cariry procura não mensurar os limites entre um e outro: “Trabalho muito com o inconsciente, é uma espécie de transe quando estou filmando”, diz.

Nesse sentido, beneficia-se do ponto de partida. “Carlos Emilio, escritor, amigo do meu pai (o cineasta Rosemberg Cariry), é um adepto do realismo fantástico. Tiramos o conto O Barco do livro Ofos, uma coletânea de relatos”.  

Desse modo, como metáfora de país, o filme não é diretamente político, mas político no fundo.

Petrus ainda falou dos seus próximos projetos. Um é um documentário A Jangada de Welles, já rodado, sobre a famosa passagem de Orson Welles pelo Ceará quando estava filmando It’s All True, em 1942.

O segundo será o road movie Mais pesado que o céu, que ainda está na prancheta e deve ser filmado  ano que vem.