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Cine Ceará 2015. Restos mortais

Luiz Zanin Oricchio

23 de junho de 2015 | 10h31

Fortaleza
O Cine Ceará vai chegando ao fim. Faltam ainda algumas exibições, que se completam hoje à noite. Amanhã haverá a entrega de prêmios, dos troféus Mucuripe, a bela localidade de onde saíam os saveiros que encantaram Orson Welles em sua passagem pelo Ceará, para filmar It’s All True. Aliás, hoje à tarde faremos uma reunião de críticos para debater essa interessante passagem de Welles pelo Brasil, em 1942. Se você estiver em Fortaleza, está convidado. Será às 14h30, na sala de debates do Hotel Mareiro, no Meirelles.

Bem, falta ainda comentar o longa peruano NN, de Héctor Gálvez, que me pareceu de excelente feitura. Um esclarecimento: NN é uma sigla da medicina legal que designa as palavras latinas Non Nomine, aplicadas a corpos que não podem ser reconhecidos ou identificados. No caso, os restos mortais de um homem, morto há 20 anos, foram exumados, mas não reclamados. Como pista, apenas a fotografia de uma garota sorridente, encontrada debaixo de sua camisa. A trajetória de busca da identidade do morto põe em questão várias vidas, em especial a do legista, que atravessa um momento difícil.

Gálvez opta por uma narrativa lacunar, em que as pistas ao espectador vão sendo apresentadas de maneira muito discreta. Desse modo, a história monta-se como um quebra-cabeças. O que se tem de mais evidente é o clima, soturno, pesado, envolvendo necrotérios e pessoas atormentadas. Algo que remete, de maneira bastante evidente, ao passado político do país, com sua história de violência e intolerância política. Esse clima, Gálvez confessa, talvez seja um tanto exagerado. Em entrevista, ele admitiu que talvez devesse ter feito algo um tanto mais leve. Talvez, mas a densidade de construção do filme, sua sobriedade e mistério são, no fundo, o que ele tem de mais interessante.

Curtas. A seleção de curtas continua muito fraca, uma das piores dos últimos anos do festival, se não a pior. A exceção talvez fique por conta de Quintal, de André Novais Oliveira (MG), que coloca os próprios pais como personagens, como já o fizera em outros trabalhos. Com toques de fantástico, ele acompanha o cotidiano de um casal de idosos da periferia de Belo Horizonte. Bastante criativo. E, salve, salve, agradável de se ver.

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