Cinco Vezes Favela Agora por Nós Mesmos
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Cinco Vezes Favela Agora por Nós Mesmos

Luiz Zanin Oricchio

27 de agosto de 2010 | 09h07

favela

Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos é mais que um filme. Marca uma mudança de paradigma, como aliás assinala em seu subtítulo, muito bem escolhido. Trata de não esconder, mas, pelo contrário, explicitar seu contraste com aquele clássico do Cinema Novo, de 1962, produto do CPC da Une, que subiu o morro em busca de contradições sociais numa época que se julgava pré-revolucionária.

Quem então filmava os favelados eram jovens de classe média, brancos, que se outorgavam a missão de “conscientizar” o povo das condições de alienação e exploração (tal era o jargão) a que ele estava submetido. Assim era visto o papel do intelectual, quer ele empunhasse uma pena ou uma câmera: guia esclarecido dos povos, consciência iluminada que poderia orientar os explorados rumo à sua libertação. Na suposição da época, o explorado, por falta de lucidez advinda de sua própria condição de explorado, não estaria em condições de tornar-se consciente de sua situação e precisaria desse intermediario – o intelectual – para abrir seus olhos e fazer com que lutasse por sua emancipação.

De lá para cá, muita coisa mudou. As chamadas “utopias”, entre as quais a da revolução social, faliram e o intelectual de esquerda perdeu sua posição de guia das massas exploradas. Outra coisa: a distância entre o centro e periferia, antes imensa, encurtou. Não porque as diferenças de classes sociais tenham sido abolidas, muito pelo contrário. Mas é que a periferia já não aceita sua condição e migrou, simbolicamente (e às vezes na prática), para o centro. O morro desceu ao asfalto e esse movimento gerou um recrudescimento do preconceito, baseado no temor e no sentimento de exclusivismo típico da classe média brasileira. Esse processo de emancipação gerou, por outro lado, esse olhar de si mesmo que tem em filmes como Cinco Vezes Favela, Bróder e a série de curtas produzidos pela Cufa (Central Única das Favelas) sua expressão melhor. A periferia já não precisa de um olhar estranho, ainda que benevolente, para representá-la na tela. Ela mesma produz a sua imagem. Essa, a grande novidade.

Visto em seu conjunto, Cinco Vezes Favela é isso – uma radical inversão de perspectiva. Sendo filme de episódios, é inevitável que uns sejam mais bem resolvidos que outros. Fonte de Renda (Manaíra Carneiro e Wawá Novais) fala da dificuldade de um rapaz pobre cursar a Faculdade de Direito. Desconstroi o preconceito e procura mostrar como o tráfico de drogas se apoia na demanda do consumidor. Arroz com Feijão (Rodrigo Felha e Cacau Amaral) usa do humor para discutir a ética, mesmo em situação de carência alimentar. A violência explícita surge em Concerto para Violino (Luciano Vidigal), na briga (e conivência) entre traficantes e policiais. Deixa Voar (Cadu Barcelos) retoma o tema do tráfico em abordagem criativa. Acende a Luz (Luciana Bezerra) retoma o tom poético e esperançoso para colocar um belo fecho no longa.

Podemos levar os episódios em consideração, um a um. O que fica para o espectador, no entanto, não é o efeito de uma série de curtas-metragens vistos em sequência, mas sim uma impressão geral, de conjunto. E esta é francamente positiva, porque superior à mera soma das partes. Nem chega a ser surpresa que assim seja, pois o projeto emerge de um trabalho coletivo, de mais de duas centenas de moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro. Cacá Diegues, um dos diretores do filme de 1962 (no episódio Escola de Samba, Alegria de Viver), é o produtor do Cinco Vezes Favela atual, junto com sua mulher, Renata Magalhães. O ato de passar o bastão é, mais uma vez, altamente simbólico. Novo cinema, para um novo tempo.

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