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Cinco Frações para uma Quase História

Luiz Zanin Oricchio

10 de maio de 2008 | 11h06

O título é interessante e faz alusão a uma certa precariedade ficcional bem contemporânea. Precariedade na arte que rima com a da própria vida. Não temos, pelo menos em certo nível, tramas ‘redondas’, com começo, meio e fim, personagens consistentes, histórias sólidas. Temos pedaços, fragmentos, como o próprio título diz, para uma ‘quase história’. Nossas próprias vidas não chegam a compor uma biografia – pelo menos não no sentido antigo. Não há completude. Nem ilusões de que venha a haver.

Isso é uma coisa. Ou seria. Incluir certo clima, digamos, existencial, na linguagem de um projeto artístico. Outra, é ajuntar algumas histórias isoladas, fazê-las funcionar com pontos de contato entre umas e outras e imaginar que, juntas, formam um conjunto. Esses cinco contos compõem, de fato, um painel de uma Belo Horizonte como cidade contemporânea, quase em transe, uma idéia urbana de Minas Gerais. Os personagens são interessantes, do fotógrafo fissurado em pés femininos ao funcionário tentado pela corrupção e a moça casadoura. Tem uma certa graça e, a circularidade da narrativa, perto do desfecho, segue também a tendência moderna para esse tipo de linguagem.

O problema é que o filme é dirigido por seis pessoas e os estilos de cada um necessariamente estão impressos em cada uma das histórias, ou dos contos que compõem esse romance da Belo Horizonte contemporânea. Há, assim, uma oscilação, que causa estranheza quando vista em conjunto. É como se saíssemos de uma história para outra, mas não conseguíssemos ter uma idéia de continuidade, que, provavelmente era o que se buscava quando se decidiu fazer de cinco curtas-metragens um longa.

Nessa falta de unidade, o jeito é curtir cada história isoladamente. E, como acontece com os filmes de episódio, constatar, de maneira acaciana, que alguns são melhores do que outros. Assim, descontada a insuficiência do projeto como um todo, fica-se com algumas seqüências inspiradas, como o casamento forçado no parque. Ou a última participação na tela grande do ator Jece Valadão, que morreu logo depois das filmagens.

Os diretores pertencem à produtora mineira Camisa Listrada e representam uma outra vertente na atuação cinematográfica do Estado. Minas tem se notabilizado, sobretudo em festivais, pelo diálogo do cinema com a videoarte, em filmes impressionistas, rarefeitos, de conteúdo aberto. Alguns são belíssimos. O trabalho da Camisa Listrada se atém mais à linha narrativa, com menos pesquisa de linguagem. São duas maneiras de fazer cinema. Ambas necessárias. Talvez complementares, num mundo de mais diálogo.

(Caderno 2, 9/5/08)

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