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Cinco Dias sem Nora

Luiz Zanin Oricchio

10 de agosto de 2011 | 10h51

Para quem gosta de classificar filmes de forma rígida, o mexicano Cinco Dias sem Nora, de Mariana Chenillo, pode significar um desafio. É um drama ou uma comédia? Ou ambos, finamente misturados, como uma dessas iguarias que Nora preparou para o Pessach e deixou no freezer, antes de morrer?

Sim, porque a personagem do título é uma senhora judia que, após tentar 16 vezes o suicídio, por fim deu-se bem. Ou mal, dependendo do ponto de vista. Morreu, após tomar três vidros de remédios. E quem se ocupa do funeral é seu ex-marido, José (Fernando Luján), separado da defunta há 20 anos, mas habitante do apartamento em frente ao seu.

Para sua surpresa, José descobre que Nora planejou com cuidado sua morte. Como o filho mora nos Estados Unidos e, por motivos religiosos os enterros não podem ser realizados no dia seguinte, a família vê-se obrigada a conviver com o corpo por cinco dias antes do funeral. Além disso, como suicida, Nora não pode ser enterrada em lugar comum no cemitério, segundo a tradição judaica, o que a família não aceita. O ateísmo de José e a desfaçatez com que trata o rabino ocupado do caso também não ajudam. Os incidentes com o corpo se sucedem com fina comicidade.

Porém, o enredo supõe outras surpresas. Algumas fotos e cartas espalhadas pela casa farão José descobrir duas ou três coisinhas a respeito da mulher com quem conviveu durante 30 anos e da qual se separou há 20. “Ninguém sabe direito o que se passa na cabeça dos outros e não nos cabe fazer julgamentos”, como diz outro rabino da história, este mais compreensivo e humano do que o primeiro.

A frase pode servir como ilustração para o filme como um todo. O ser humano é um mistério. Amar alguém não serve como chave de decifração, pois sempre resta uma zona de sombra, uma opacidade do outro, em qualquer relacionamento. E este é seu encanto. Fossem os seres humanos totalmente transparentes, como sonham os amantes no auge da paixão, e talvez a relação fosse ainda mais impossível do que é.

De qualquer forma, essa estranha comédia que é um drama, ou desse drama cômico, reflete sobre a condição humana sob forma bem modesta, porém interessante. Lembra, se quisermos uma aproximação, o universo do argentino Daniel Burman (Abraços Partidos), outro “especialista” da crônica familiar judaica. É a arte de extrair muito de situações íntimas, privadas, do que existe de mais banal nas crônicas familiares. Só se faz isso com grande sensibilidade.

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