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Cidade de Deus x Tropa de Elite

Luiz Zanin Oricchio

17 Fevereiro 2008 | 10h32

Leitores me pedem uma comparação entre Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Ambos mergulham no mesmo ambiente, mas de pontos de vista opostos. Acho que Cidade de Deus é mais inventivo, ao nível da linguagem cinematográfica. Mas Tropa de Elite é igualmente eficaz. Ambos deixam de lado qualquer bom-mocismo no retrato que fazem da “realidade”. Não têm heróis. Se a platéia simpatiza com Bené, de um lado, ou com o Capitão Nascimento, do outro, o problema é dela, platéia.

Bem diferentes, entre si, notei uma semelhança fundamental entre os dois: conseguem aquilo que os psicólogos da Gestalt chamam de “pregnância”, a boa forma, aquela que fica na memória porque seduz.

Notei, em meu ambiente de trabalho, que atitudes e frases dos dois filmes entraram para o cotidiano das pessoas. “Dadinho é o c…, meu nome é Zé Pequeno”, “Pede prá sair, 02”, e vai por aí. Deslocando um pouco: lembro que Noel Rosa sentiu que era popular quando voltava de madrugada para casa e ouviu um bêbado assobiando Com que Roupa pela rua.

Entrar na linguagem do povo, ou no assobio do bêbado, isso é tudo para uma arte popular.

Notei também que os dois filmes seduziram o público jovem, o que é fundamental. Entendo que isso se deva muito mais ao ritmo, à música do filme (no sentido literal e no figurado) do que propriamente à temática. O mesmo aconteceu com Meu Nome não é Johnny. São filmes que devem ser estudados nesse momento de difícil comunicação do cinema com o público.

Em Berlim, esse impacto, esse poder de comunicação, esse ritmo de Tropa de Elite, devem ter produzido seus efeitos no júri.

Não vamos esquecer que Costa-Gavras, autor de filmes políticos como Z e Missing sempre esteve atento para o fator comunicação com o público. Muitas vezes foi criticado por isso e uma das críticas era de que seus filmes eram politicamente avançados e esteticamente conservadores.

Estive com ele em Cuba alguns anos atrás (fomos juntos comprar charutos e depois degustamos um rum, fumando um “puro”)e ele me disse que jamais deu bola à essas críticas. O cinema tem de funcionar junto ao público, senão está morto. E mesmo a melhor “mensagem política” será ineficaz se não chegar ao seu destinatário e sensibilizá-lo.

Esses são alguns pontos a discutir.