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Chuva

Luiz Zanin Oricchio

22 de maio de 2011 | 10h25

Chuva, da argentina Paula Hernandéz, concorreu em 2009 ao Festival de Gramado. Com sua atmosfera intimista, acabou não fazendo muito sucesso (ganhou apenas o prêmio de fotografia), mas causou boa impressão. É o tipo de filme que aposta em elementos mínimos, não tenta traçar grandes painéis sociais e nem se manifesta desejo de se converter em tratado de psicanálise. Apenas segue dois personagens em uma boa história.

E qual a história? A de um homem e uma mulher, presos dentro de um carro, em um congestionamento de trânsito em Buenos Aires, num dia de chuva. São vividos por Ernesto Alterio e Valeria Bertucelli. Ela é uma mulher casada, que rompe a união de dez anos, pega umas roupas, enfia numa valise e embarca em seu carro, meio sem destino. Ele é outro desgarrado, que volta ao país depois de passar 30 anos fora, na Espanha. Encontram-se nesse congestionamento. Para fugir da chuva, ele entra no carro de Alma (esse é o nome da personagem feminina) e começam a conversar. E por aí segue a trama.

Se é que se pode chamar de trama essa situação mínima que envolve um casal em hipotética formação. Hipotética, porque são dois desgarrados da vida, por razões que não ficam muito claras. E nem há porque exigir isso, porque o cinema, a não ser para espectadores muito presos ao real, não precisa explicar tudo e nem dar as razões de todos os seus passos. Basta sugerir. E esperar que a imaginação de quem vai ao cinema esteja em funcionamento. No entanto, também será compreensível se houve gente que se queixar dos tempos mortos, de um, digamos assim, “não acontecer” que, no entanto, é parte integrante da proposta.

Uma proposta de vazios, sem dúvida, e com receptividade limitada, para a qual a diretora deveria estar prevenida. É inevitável que tanto o homem como a mulher contem suas histórias um ao outro. E não menos inevitável que com esse clima (e essa chuva, ainda por cima) o tom seja o da melancolia, uma constatação de destinos frustrados. Um filme noturno, com aquela beleza surda que provém da tristeza irremediável de ser e estar no mundo.

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