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Chis Marker: a memória inventada

Luiz Zanin Oricchio

24 de junho de 2009 | 09h01

Quem fala de Chris Marker solta logo um clichê: seu média-metragem La Jetée inspirou o cult 12 Macacos, de Terry Gilliam. O que é verdade, mas pouco para falar de um cineasta tão complexo e difícil de definir como Marker (1921). Por esse motivo é tão importante a retrospectiva promovida pelo CCBB Chris Marker – Bricoleur Multimídia, que traz nada menos que 33 filmes, vídeos e programas de TV assinados pelo diretor, um outsider da Nouvelle Vague.

Há um toque de mistério nessa obra tão inventiva e marcada pela preocupação recorrente com o tema da memória. É assim com La Jetée (termo que pode ser traduzido como “embarcadouro”), sua única de ficção – embora em Marker a distinção já problemática entre ficção e documentário seja ainda mais fluida. Em todo caso, La Jetée fala de uma imagem de infância, um suave rosto de mulher entrevisto no Aeroporto de Orly pouco tempo antes de a humanidade sofrer uma catástrofe. Os desdobramentos da história – filmada em stop motion, fotografias paradas, em sequência – remetem para as melhores histórias de ficção científica. Mas uma sci-fi “intelectual”, como as de Andrei Tarkovski, por exemplo.

Como é o caso de Sans Soleil (Sem Sol), um desses falsos documentários de Marker e uma de suas obras mais interessantes. No princípio, também há a memória. Não como um depósito de recordações, fixo, estável, como se fosse um museu do passado. Marker trabalha com uma memória ativa, criadora, que reprocessa seus conteúdos. Em Sans Soleil, o que temos é a narração de uma mulher, que lê as supostas cartas que lhe teriam sido enviadas por um amigo, cameraman, dos países que visita. Em especial do Japão e da África. No início, uma filmagem de família, a mulher e filhas, na Irlanda, uma imagem que o câmera, através da narradora, qualifica como a própria definição da felicidade. Há um diálogo interno da obra com La Jetée sobre essa permanência da imagem emblemática da pessoal – aquilo que alguns psicanalistas poderiam chamar de “fantasma fundamental”. Uma imagem que, verdadeira ou fictícia, organiza e dá estabilidade ao sujeito.

Esse refrão irá se repetir em diversos outros filmes, dando a entender que se trata, também, de um fantasma fundamental do próprio cineasta. Mas não se trata aqui de uma arte da intimidade. Esse trabalho com as imagens, com sua instabilidade intrínseca também remete ao campo do político, como se pode observar no oceânico O Fundo do Ar É Vermelho, um ensaio global sobre a década de 60 de nada menos que 180 minutos, constantemente reelaborados e remontados pelo artista ao longo de sua trajetória.

Há muito mais para ver. Em doses homeopáticas porque o próprio Marker, como diz aos curadores Francisco César Filho e Rafael Sampaio, é contra retrospectivas como esta. Considera-as abusivas e contraproducentes. Seja. Mas, para descobrir Marker, vale.

(Caderno 2, 24/6/09)

Serviço

Chris Marker, Bricoleur Mul-timídia. Hoje, 15 h, E-CLIP-SE (1999), Slon-Tango (1993), Gato Escutando a Música (1990) e Chats Perchés (2004); 17h30, A Sexta Face do Pentágono (1967), A Embaixada (1974) e Balada Berlinense (1990); 19h30, La Jetée (1962) e A.K. Retrato de Akira Kurosawa (1985). Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112, Centro, tel. 3113-3651. 4.ª e 5.ª, 15 h, 17h30, 19h30; 6.ª, 14 h, 17h30, 19h30; sáb., 13 h, 15 h, 17h30, 19h30; dom., 17h30, 19h30. R$ 4. Até 5/7

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