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Chico Buarque no cinema

Luiz Zanin Oricchio

30 de março de 2009 | 13h55

Escrevi esse texto para o caderno sobre o lançamento de Leite Derramado, o novo romance de Chico Buarque de Holanda. Ao livro, em si,volto depois.

Chico Buarque não pode se queixar de falta de sorte na adaptação dos seus romances ao cinema. O primeiro deles – Estorvo – tornou-se um dos filmes mais radicais na fase recente do cinema brasileiro, sob direção de Ruy Guerra. Benjamim não está no mesmo patamar, mas não faz feio. Dirigido por Monique Gardenberg, parece às vezes um tanto artificial, mas o romance talvez a tenha levado a esse resultado. Budapeste ainda não entrou em cartaz – tem estreia prevista para 22 de maio. Seu trailer pode ser visto nos cinemas e parece animador. A versão é assinada por Walter Carvalho, fotógrafo de ponta e ótimo diretor. Logo, logo saberemos quem se habilita a colocar em imagens, e sons, a prosa fragmentária de Leite Derramado, o romance que está hoje chegando às livrarias. Ele é tão “cinematográfico” quanto os outros, embora se possa prever uma adaptação trabalhosa.

Aliás, a opção da literatura de Chico pela prosa fragmentária, rarefeita, com idas e vindas no tempo, tem sido mesmo um desafio para os adaptadores. Essas alterações na linearidade da linguagem costumam ser mais bem absorvidas sob forma de texto, embora tais procedimentos há muito não sejam novidade no cinema, basta pensar em Godard, para ficar no nome mais óbvio. Mas o cinema, na qualidade de arte “popular” costuma ser esteticamente mais conservador que a literatura.

Mas boa parte do êxito (estético, não comercial) de Estorvo deve ser creditada à coragem com que Ruy Guerra enfrentou o texto do seu amigo e parceiro. O romance já é, em si, de difícil assimilação. Muitos leitores, mesmo fãs de carteirinha de Chico, se sentiram derrotados com o tom rarefeito do texto. E, de fato, ele causa estranheza, pelo menos até nos darmos conta de que esse deslocamento de expectativa é exatamente o efeito buscado pelo autor.

Chico deseja expressar o grau de alienação a que chegou uma sociedade sem qualquer expectativa que não seja contábil – sucesso, fama, mera sobrevivência. Os limites entre o crime e a lei se diluem. O narrador move-se em sua cidade como se ela lhe fosse alheia. Ruy deixou-se levar pela proposta do escritor e radicalizou-a. Leu e compreendeu profundamente o que Chico havia escrito e traduziu aquele material em imagens e sons. Diminuiu a saturação da fotografia em cores até que ela quase se transformasse em preto e branco. A câmera promove deformações. O narrador, Eu (Jorge Perrugorría, ator cubano), perambula como se não tivesse vontade própria. Tem a casa invadida, vai procurar o sítio da família e constata que ele se transformou em abrigo de marginais. Erra pela vida sem destino. A narração em off (do próprio Ruy, com seu sotaque lusitano) e a música de Egberto Gismonti contribuem para aumentar a sensação de estranheza. Talvez não haja filme que melhor expresse aquilo em que se transformou a sociedade contemporânea, brasileira e mundial. Vaga distopia transnacional, sem referências, sem pontos de conforto ou oásis à vista.

Já a adaptação de Benjamim é um tanto mais tímida. Embora se trate de um bom filme, parece precaver-se contra alguma possível falta de entendimento do público médio. As passagens de tempo – alternâncias entre a narrativa no presente e no passado – são assinaladas de maneira mais didática. A história coloca o protagonista Benjamim Zambraia em dois tempos diferentes (interpretados por Paulo José e Danton Melo). Uma paixão de juventude de Benjamim (Cléo Pires) reaparece, como reencarnada, 30 anos depois. Esse caso de amor em dois tempos leva o personagem a reavaliar o passado e tentar acertar contas com ele. Não se trata de uma simples história de amor, mas envolve também uma questão política não resolvida, como se o autor precisasse reelaborar um período traumático da história brasileira.

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