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Chéri: a ética difusa na guerra dos sexos

Luiz Zanin Oricchio

27 de janeiro de 2010 | 10h38

Em época distinta, Stephen Frears volta a um dos seus temas favoritos – o que existe de cruel e calculista nas idas e vindas da sexualidade humana. Relações Perigosas, de 1988, era ambientado na Era das Luzes e baseado na obra de Chordelos de Laclos. Chéri se passa na belle époque, a transição entre os séculos 10 e 20, e inspira-se no livro de Colette. São filmes distintos, mas de parentesco claro, sem qualquer necessidade de teste de DNA.

Se em Ligações Perigosas, Frears, seguindo Laclos, concebia a relação entre sexos como um exercício de tática e estratégia refinado, em Chéri aplica a ideia de Colette de que não existe piedade nas relações de sedução e nem aquilo que se chama de cumplicidade feminina.

Frears gosta de aproximar a ideia de sexo à de poder e, dessa forma, a história de Chéri será precedida de um prólogo. Imagens e voz em off ilustram a importância da chamada mais antiga das profissões na história humana e a importância que o métier exerce em determinado período. Justamente aquele descrito por Colette quando então as cortesãs mais famosas chegaram ao cúmulo do poderio, manipulando sexualmente homens importantes e levando alguns à ruína.

Quem são essas mulheres? Léa (Michelle Pfeiffer), Madame Peloux (Kathy Bates) e Marie Laure (Iben Hjejie), veteranas na arte amorosa e cheias de veneno em suas relações pessoais. Peloux tem um filho, Chéri (Rupert Friend), que, como o nome indica, é o queridinho das moças de vida airosa parisiense. Léa o carregou no colo mas alimenta pelo rapaz sentimentos que vão além do maternal. Iniciam um longo caso, aprovado pela mãe do rapaz. Mas, depois de tudo, esta tem planos para o filho e estes incluem o casamento com Edmée (Felicity Jones), filha de Marie Laure.

Se você aceitar que essas charmosas personagens francesas se exprimem no mais puro inglês, vai aproveitar a fluência do filme. Como de hábito, Frears se apoia em ambientação de época precisa e em nada exibicionista. Ampara-se também na qualidade dos diálogos que tem à disposição. De fato, boa parte do combate entre as veteranas cortesãs passa pelo registro verbal. E nesse terreno se tem a amostra de como as relações humanas, mesmo (e talvez em especial) as mais polidas e civilizadas, escondem, sob ralo verniz, uma violência e crueldade inesperadas. Não basta a Madame Peloux triunfar sobre a rival; precisa esmagá-la, fazendo-o ao mesmo tempo em que afeta uma terna amizade. A maldade é uma arte.

Sobre Michelle Pfeiffer recai o trabalho mais pesado – talvez o mais ingrato e por isso mesmo o mais compensador. Precisa mover-se como expert nessa guerrilha que se trava entre a cama e a fala. E, ao mesmo tempo, suportar aquilo que o papel lhe impõe: emprestar o corpo ao drama do envelhecimento. Fardo sempre mais duro de carregar para uma mulher excepcionalmente bonita como ela. Por isso, provavelmente, há empatia entre Michelle e a já sem viço prostituta que interpreta.

Não há piedade na guerra, como no amor, lembravam Chordelos de Laclos e Colette. Nem mesmo vencedores nesse combate, como sugere o destino de Chéri, o pivô de todo o drama.

(Caderno 2, 27/1/10)

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