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Cheiro do Ralo

Luiz Zanin Oricchio

23 Março 2007 | 21h08

Vi nos jornais que estreou O Cheiro do Ralo, filme de Heitor Dhalia baseado em texto de Lourenço Mutarelli. Assisti ao filme na Mostra de São Paulo, em outubro, e não pude revê-lo pois estou em férias, fora da cidade. A lembrança que trago dele é boa. Na timidez atual do cinema brasileiro, consegue ser surpreendente, tanto na temática como na linguagem, o que não é pouca coisa.

Selton Melo interpreta um tipo asqueroso chamado Lourenço. Ele vive da exploração alheia. Compra objetos de quem está desesperado atrás de dinheiro e não pode esperar. Ele as explora. E detalhe: o faz com prazer. O estilo fechado de filmar, a fotografia em tons frios, uma certa tendência ao expressionismo, coloca na tela essa sordidez auto-complacente de maneira bastante contundente. Lourenço sente um odor estranho e este o incomoda. Seria do encanamento da sua casa, ou vem dele mesmo? Esse universo dark, imaginado por Mutarelli (que trabalha como ator no filme, no papel de um segurança do usurário), tem alguma coisa a dever a Dostoievski. Ou a Crumb, de quem o autor, cartunista também, se diz ardoroso fã.

Não deve ser fácil retratar crápulas. Ainda mais se eles contam com a fisionomia simpática (e familiar) de um Selton Melo que, no entanto, se sai muito bem. Existe uma fresta, um raio de sol para o personagem – ele sente um desejo extremo por uma garçonete. Aliás, fixa-se, de forma fetichista, num detalhe anatômico significativo da moça – seu bumbum. Nada original no país onde essa parte da anatomia feminina é preferência nacional. Mas, da maneira como ela aparece no filme, parece mesmo um fetiche no sentido mais estrito do termo – quer dizer, um pré-requisito, um sine qua non para que o desejo se instale. Uma obsessão para Lourenço, a maneira como a sexualidade pode se organizar para esse homem fechado em si mesmo. Mas a metáfora forte de “algo que fede” não deixa de aludir à nossa condição, à sociedade hipócrita e desumana em que vivemos e na qual a luta pela sobrevivência parece justificar qualquer ato desde que ele conduza ao lucro. Nesse sentido não seria Lourenço, o crápula assumido, um trabalhador exemplar? E a sua obsessão pelo derrière da moça um desesperado ato sacrificial de amor?

Não sei como as platéias estarão recebendo O Cheiro do Ralo. Lembro que, na sessão para críticos, riu-se muito de algumas cenas. Lourenço é um crápula tão convicto que se torna engraçado. Mas esse riso é amargo. Sabemos que deriva de algum sentimento pouco claro em nós mesmos – talvez aquele resto de sentimento sádico que habita a mais civilizada das criaturas. O Cheiro do Ralo vem para incomodar.