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Che na capa dos Cahiers du Cinéma

Luiz Zanin Oricchio

03 de março de 2009 | 13h45

É um número especial este dos Cahiers du Cinéma de janeiro. Seu diretor de redação, Jean-Michel Frodon, anuncia o que todos já sabiam – a compra da mais famosa revista de cinema do mundo pelo grupo Phaidon, da Inglaterra. Até 2008, a Cahiers pertencia ao Le Monde. Mas, ao que parece, a revista é deficitária e o Le Monde, ele próprio (como toda a imprensa mundial) enfrentando dificuldades, resolveu livrar-se desse título de prestígio, porém dispendioso. Frodon anuncia a compra da revista pela Phaidon com otimismo: “É uma tripla garantia de qualidade estética, ambição intelectual e independência financeira.”

Outro fato digno de registro é a capa deste número ser dedicada ao Che, de Steven Soderbergh, tipo de épico em geral esnobado pela revista, que prefere se dedicar a obras de outro tipo. Ou alternativas ou americanas, obedecendo à inspiração primeira dos Cahiers de garimpar autores em plena meca da indústria.

Soderbergh é cineasta respeitado, no entanto seu díptico sobre Ernesto Guevara parece um empreendimento de risco. Primeiro pela figura do guerrilheiro, ícone da esquerda e do espírito dos anos 60, mas detestado por quem pensa de maneira oposta. Segundo, a opção do diretor, de imprimir um tom clássico a seu filme, uma narrativa límpida que nunca resvala para o academismo. De novo: política e classicismo. Não são características que mais agradam aos críticos dos Cahiers. No entanto, a recepção ao filme é das mais positivas.

No artigo escrito por Eugenio Renzi, alguns pontos são discutidos. Como o da sugestão de que o encontro de Guevara com Fidel no México se deu sob um misto de loucura e paixão pela revolução. Condições sem as quais ninguém embarcaria num precário iate de turismo para derrubar um governo protegido por um exército. Assim, o êxito dessa aliança teria sido levar essas duas características até as últimas consequências. A cena da conversa entre Fidel e Guevara está em O Argentino, título da primeira parte. Dessa maneira, A Guerrilha, título da segunda parte, não seria a história de uma derrota, mas “o contracampo de um triunfo”. Na lógica proposta pelo filme, e flagrada pelo crítico, o fato de Guevara abandonar uma revolução àquela época triunfante para embrenhar-se na aventura boliviana, seria apenas a consequência lógica da premissa inicial. Tivesse o Che se acomodado aos cargos que chegou a ocupar na estrutura de poder da revolução cubana e trairia aquela intuição inicial. Não seria o ícone que hoje ainda é. O que lhe dá força é a paixão. E, por que não?, também a loucura.

Essa é uma maneira de entender a personalidade do personagem e traçar um projeto de filme em consonância com essa compreensão. Pode-se discordar, mas tem lá sua lógica interna.

(Cultura, 1/3/09)

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