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Chavela Vargas, Dolores Durán e Bethania

Luiz Zanin Oricchio

19 de dezembro de 2006 | 19h36

Esta aconteceu em uma viagem anterior a Cuba, muitos anos atrás. Estava com minha mulher em Havana, na Bodeguita del Medio, e havia um conjunto musical tocando músicas cubanas e mexicanas. Boleros. De repente, tocaram A Noite do Meu Bem, da nossa Dolores Durán. Naturamente numa versão, chamada La Noche de Mi Amor. Quando acabou a canção, falei para o violonista que aquela música era brasileira. “Não, é mexicana”, respondeu. “Brasileira”, garanti. “E como se chama o compositor?”, me perguntou, com ar de desafio. “Dolores Durán”, disse. O cubano caiu na risada: “Esses brasileños são o máximo: com esse nome, e ele diz que a compositora é do país dele”. E assim ficamos.

Conto a história porque fui ver este ano, em Havana, um maravilhoso documentário sobre a cantora costa-riquenha, radicada no México, Chavela Vargas, uma das favoritas de Caetano Veloso. O filme é Su Nombre es Chavela, de José Eduardo González Ibarra. Chavela tem um repertório incrível, dramático, de males de amor, que ela intensifica com sua presença marcante no palco. Uma das músicas desse repertório: La Noche de Mi Amor, de Dolores Durán.

Almodóvar, que aparece no filme dando depoimento, diz que chora a cada vez que a ouve, e que Chavela é talvez a artista de presença mais marcante que ele tenha visto na vida, em pessoa, fisicamente, em um palco. De fato, ela é impressionante, com sua voz rouca, profunda, vinda lá de baixo, de camadas geológicas primitivas, como diz dela Miguel Bosé. Almodóvar, que ama Chavela, é amigo do peito de Caetano Veloso que, por sua vez, é irmão de Maria Bethania, a cantora brasileira cuja presença em cena é também muito forte e dramática, como a da costa-riquenha/mexicana. Este ano havia em Havana um documentário chamado Bethania, a Música é Perfume, do suíço Georges Gachot, que eu já havia visto aqui em São Paulo, na Mostra.

Tudo dá liga, quando a alma não é pequena. Curta a música, leitor. E aproveite o dia.

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