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‘Chatô’ – uma primeira impressão

Luiz Zanin Oricchio

12 de novembro de 2015 | 17h10

Hoje de manhã Guilherme Fontes fez uma sessão de imprensa para o seu Chatô. O polêmico Chatô, baseado (em termos) na magistral biografia de Fernando Morais sobre Francisco Chateaubriand Bandeira de Mello, o nosso magnata das comunicações, fundador dos Diários Associados.

Na saída da sessão, bati um papinho rápido com o diretor. Não lhe dei minha impressão sobre o filme, mas apenas perguntei por que usava tantos nomes ficctícios para personagens facilmente identificáveis para quem conhece o bê-a-bá da História do Brasil. Certo: Chatô é Chatô e Getúlio é Getúlio. Mas o resto…Carlos Rosenberg parece um mix de Carlos Lacerda e Samuel Wainer, Gregório Fortunato é Terêncio, ou coisa assim, para não falar das mulheres que passaram pela vida do jornalista.

Guilherme me deu uma resposta convincente. Disse que a lei de alforria dos biógrafos acaba de sair e nem estava no horizonte 15 anos atrás. Desse modo, teria de pedir licença e autorização às famílias (pois todos os envolvidos estão mortos) e isso redundaria num trabalho infinito. Sísifo. Faz sentido. Mas a solução causa estranheza.

De qualquer forma, a trajetória de Chatô (Marco Ricca) é vista de maneira não-linear, delirante e farsesca. São opções estéticas e narrativas? Ou defesas?

Como se sabe, a farsa é excelente recurso para a fraqueza narrativa e a escassez de recursos. Em Chatô, é uma carnavalização meio estranha, mas que encontra apoio até mesmo na biografia. Como se sabe, Assis Chateaubriand sofreu um grave AVC e sobreviveu a ele, embora com sequelas sérias. O próprio livro o imagina revisitando sua vida no delírio do coma. E aí, claro, em termos cinematográficos, vale tudo. Se alguém disser que o sotaque nordestino (o personagem era paraibano) é forçado, a resposta é que se trata de uma farsa. Se disserem o mesmo do Getúlio, composto por Paulo Betti, bem, é tudo farsa, paródia e não pode ser levada ao pé da letra. E por aí vai. Há farsas deliciosas e há farsas, com perdão do trocadilho, feitas apenas para disfarçar carência de recursos.

Chatô é um caso excepcional na filmografia brasileira. Produção envolta em processos, grandes nomes (Francis Ford Coppola) e muita fofoca. Vários atores, como José Lewgoy e Walmor Chagas, já morreram. Os outros envelheceram.

Dizia-se que o filme não existia. Existe. Depois, desconfiava-se que seria uma colcha de retalhos, uma costura atabalhoada dos trechos que haviam sido filmados. Também não é isso. É um filme e tem a sua estrutura. É a partir dessa constatação que podemos começar a analisá-lo.

A mim interessa que tipo de representação Chatô propõe da história do Brasil daquele período. Transformá-la em caricatura revela uma intenção crítica ou seria apenas a maneira esperta para driblar a falta de recursos (e não apenas financeiros) para retratá-la de outra forma? Fica essa questão, ainda a ser meditada.

Ouvi de tudo um pouco na saída do cinema. Por exemplo, que o filme havia adquirido súbita atualidade. Suponho que a referência seja à atual carnavalização da atividade política nacional. Talvez práticas jornalísticas pouco ortodoxas, o clientelismo em política, a vocação golpista das elites, o arrivismo, o mau gosto, a cafajestice  – tudo isso não tenha começado hoje e possa ser mais bem compreendido quando pensamos em nossos antecedentes e antecessores. Mas não me pareceu um efeito de análise buscado pelo filme, senão uma atualização que se processa em nossas mentes carentes de algum sentido nos dias de hoje.

No todo, como cinema, o filme me pareceu muito desigual. Mas, como todo mundo, saí agradavelmente surpreso pela sua existência como obra, ainda que muito questionável.

Escreveremos mais sobre Chatô.

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