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Chaplin: O cinema falado é o grande culpado da transformação…

Luiz Zanin Oricchio

30 de dezembro de 2007 | 10h53

Amigos, abaixo, o texto sobre Chaplin que escrevi para o Cultura de hoje. Devo acrescentar que revi, ontem, Um Rei em Nova York. Fiquei surpreso. Pode não ser comparável às grandes obras do diretor, mas corta como navalha sobre a questão do marcarthismo e tem grandes momentos de gagues visuais, segundo o estilo do diretor. Vale rever, e talvez reconsiderar opiniões. Bom domingo a todos.

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Quando em junho de 1928 se fundou o primeiro cineclube do Brasil, não por acaso ele ganhou o nome de Chaplin Club, pois Charles Chaplin era mais ou menos como um sinônimo da arte cinematográfica então. Criado a partir de uma idéia de Plínio Sussekind Rocha, e levada adiante por ele e mais Otávio de Faria, Almir Castro, Claudio Mello e Mário Peixoto, o cineclube, e sua revista O Fan, mantinham como foco a genialidade de Chaplin e a defesa do cinema mudo contra o retrocesso do cinema falado, que aparecia no horizonte com um filme divisor de águas – O Cantor de Jazz (1927), de Alan Crosland com Al Jonson.

A idéia de base do Chaplin Club diz muito sobre o próprio Charles Chaplin. Para os teóricos brasileiros, a introdução da fala traria o risco de levar o cinema de volta à origem da qual ele havia penosamente se liberado, o teatro. Não devemos esquecer que o próprio Louis Lumière, que em 1895 havia promovido a primeira exibição pública das imagens em movimento, dizia que aquela era “uma invenção sem futuro”. Mas, ao contrário do que previra Lumière, o cinema, a partir dos pioneiros, Pastrone e Griffith, já havia construído uma narrativa própria. O que se via na tela nos anos 1920 não era mais “teatro filmado” e sim uma arte com vida própria e uma linguagem que se tornava familiar ao público.

Das especulações críticas do pessoal do Chaplin Club sai uma das obras-primas do cinema brasileiro, Limite, dirigido por Mário Peixoto em 1930. Logo em seguida, o clube se dissolve e a revista O Fan deixa de ser publicada. E por quê? Porque, em vista do sucesso inexorável do cinema falado, não havia mais sentido em manter o clube, com sua rígida postura, ou a publicação. Eram já órfãos do cinema mudo.

Assim como o era o próprio Charles Chaplin, o maior gênio do período mudo. Tanto assim que, mesmo com o cinema falado se tornando rapidamente corriqueiro, Chaplin continuava a fazer seus filmes mudos. E que filmes! Algumas de suas obras-primas foram realizadas nesses anos que, para ele, foram de transição: Luzes da Cidade (1931), Tempos Modernos (1936) e O Grande Ditador (1940).

O fato é que Chaplin usava de maneira tão criativa quanto inesperada os recursos visuais, e tinha mesmo suas razões de achar que o uso intensivo de diálogos iria baratear a arte cinematográfica. Basta lembrar de Em Busca do Ouro (1925) com a célebre dança dos pãezinhos ou a da casa sobre o abismo; Tempos Modernos, com Chaplin perdendo-se no meio das engrenagens da sua máquina; e, claro e óbvio, mas inevitável – a cena de O Grande Ditador com o próprio brincando com o globo terrestre.

Tudo o que havia para ser dito o era nessas seqüências de imagens. Em Tempos Modernos, uma profusão de significados vinha expressa em seus elementos visuais e sob forma cômica. Nenhum discurso sobre a alienação do homem na sociedade industrial teve o mesmo efeito que as imagens do trabalhador preso nas engrenagens. Nenhuma tese subversiva sobre a mecanização do trabalho obteve o mesmo impacto que aquela em que Chaplin, de tanto apertar parafusos com uma chave, enlouquece e não consegue parar de repetir o gesto – para desespero de uma mulher de seios fartos que desce a rua e pressente o perigo que corre. Nenhum discurso contra Hitler ou contra Mussolini foi tão fulminante e irônico como aquela cena em que os dois disputam quem fica mais alto em sua cadeira de barbeiro. E nenhuma cena descreve melhor o desejo doentio de poder de um ditador como aquela, já mencionada, do jogo com o globo terrestre.

É curioso que a parte “falada” da obra de Chaplin acaba por lhe dar razão em seu apego ao cinema mudo. Monsieur Verdoux (1947), Luzes da Ribalta (1952), Um Rei em Nova York (1957) e A Condessa de Hong Kong (1966) são tidos como filmes menores, muito aquém daquelas obras-primas do período silencioso. Mas serão mesmo? Há pouco teve início um movimento de revalorização desses filmes pouco amados de um diretor que é amado entre todos. Por exemplo, Jean-Michel Frodom, diretor da Cahiers du Cinéma, elegeu Um Rei em Nova York como um dos maiores filmes de toda a história. Excentricidade? Talvez. Mas há que reavaliar.

O fato é que há sempre algo a ver, ou rever, em Chaplin. E todos nós, queiramos ou não, somos seus filhos e todos temos o nosso Chaplin favorito. O meu? Sem dúvida Tempos Modernos, a mais corrosiva, lúcida e irônica visão do capitalismo jamais colocada numa tela. É uma espécie de O Capital dotado de senso de humor.

(Cultura, 30/12/07)

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