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Chacrinha e o sadismo do público

Luiz Zanin Oricchio

30 de outubro de 2009 | 10h12

Eu não vim aqui para explicar, vim para confundir, na boa frase do Velho Guerreiro. Se um filme tivesse epígrafe, esta poderia servir para o de Nelson Hoineff, justamente o que ele fez sobre Abelardo Chacrinha Barbosa. A começar pela principal das confusões possíveis: sim Alô, Alô, Terezinha! pode ser um documentário sobre Abelardo Barbosa, mas é muito mais sobre seu tempo e sobre a gente que gravitava em torno do apresentador, em especial as chacretes. Para quem não é daquela época, explica-se: chacretes eram as, digamos assim, dançarinas que emolduravam o programa.

Hoineff apresenta as moças em material de arquivo e em imagens atuais. O tempo inclemente, seria o comentário banal. Passa para todos, produzindo estragos. Passou para as chacretes, danificando seu material de trabalho. Algumas parecem bem consigo mesmas; outras nem tanto. Uma fala que fazia programas para complementar o orçamento, outra nega. Uma delas, a Índia Potira, tira a roupa dentro de um chafariz e diz que realizou um sonho. Há imagens também de calouros, costumeiramente buzinados pelo apresentador.

O documentário produz na plateia o mesmo tipo de reação que o programa do Chacrinha: desperta o sadismo do público, num exercício de exposição pública de fragilidades e caos calculado para produzir experiência anárquica. Mexe com sentimentos ancestrais, próximos aos dos romanos que iam ao Coliseu ver lutas de gladiadores ou condenados entregues às feras. A TV é a arena contemporânea onde o voyeurismo sádico se eterniza. Hoineff, homem de TV, sabe por onde pisa e presta sua homenagem ao mestre do gênero.

As discussões éticas estão abertas.

(Caderno 2, 30/10/09)

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