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Cenas do cotidiano nacional

Luiz Zanin Oricchio

04 Abril 2011 | 11h01

Reação ou indiferença diante de um corpo caído no chão; o cotidiano de trabalhadores numa linha de produção das mais ingratas. São cenas brasileiras, trazidas por dois filmes que participam da competição nacional do 16º É Tudo Verdade: Aterro no Flamengo, de Alessandra Bergamaschi, e Carne, Osso, de Caio Cavechini e Carlos Juliano de Barros.

Aterro do Flamengo é neutro até no título. Apenas enuncia a locação das imagens que serão vistas. A câmera é fixa, mostra um trecho do aterro com um pedaço de mar, uma pista de cooper, alguns aparelhos de ginástica. Num deles, destinado a flexões abdominais, há um corpo em posição estranha. Num ambiente em que todos se movem, ele se destaca pela imobilidade. A filmagem é quase em tempo real, embora haja cortes, que são denominados com prólogo, três episódios e um epílogo. Enfim, em trabalho tão econômico em termos de sugestões, essa divisão acaba por induzir uma narrativa. Que, claro, será forjada pelas imagens, mas principalmente pelo que se passa no interior da mente do espectador. É um documentário de observação e, sobretudo, de construção.

É curioso como obra tão despojada como Aterro do Flamengo reviva discussões recorrentes, como por exemplo, em Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami: o significado está na obra em si ou nos olhos (e mente, e coração) de quem a contempla? Pois bem, como existem várias respostas a essa questão (e, portanto, nenhuma), fiquemos com a impressão de que um doc tão pouco indicativo como Aterro do Flamengo pode nos sugerir muito a respeito tanto da indiferença como da compaixão. E nos falar, mais uma vez, do tabu da morte, que precisa ser encoberto de alguma forma para que vida continue a pulsar ao seu lado. Um trabalho de muito rigor, executado por alguém cujo campo de atuação é o das artes visuais. De fato: Aterro do Flamengo é como se fosse uma pintura móvel. Ou uma instalação.

O registro de Carne, Osso é o oposto. À rarefação de Aterro do Flamengo contrapõe a imagem saturada do massacrante cotidiano laboral dos frigoríficos. Diante da linha de produção, desossando frangos, cortando carnes, eles executam movimentos repetidos, de modo cada vez mais rápido, diante de uma esteira que se movimenta no ritmo acelerado da expansão da economia. Uma das operárias diz que se uma mosca pousar em seu rosto, ela não poderá espantá-la porque senão perderia o passo da esteira. Qualquer alusão ao clássico Tempos Modernos, de Charles Chaplin, não é mera coincidência. A linha de montagem fordista aumenta a lucratividade, e desmonta seres humanos.

Não por acaso, também, muitos desses trabalhadores saem precocemente do serviço, com problemas como tendinite, atrofia dos nervos e…depressão. O documentário ouve os operários, autoridades do SUS e da Justiça do Trabalho, mas, compreensivelmente, nenhum dos patrões ou diretores dos frigoríficos aparece para justificar essa modalidade industrial. Carne, Osso é uma poderosa denúncia da desumanização do trabalho.