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Cem anos de cinema baiano

Luiz Zanin Oricchio

08 de fevereiro de 2011 | 00h32

É um tremendo presente para o cinéfilo, mesmo se o título pareça um tanto exagerado. De fato, a caixa Bahia 100 Anos de Cinema, contempla pouco mais de cinquenta anos, com filmes de 1954 a 2008. As produções anteriores não puderam ser incluídas por motivos diversos: direitos autorais complicados ou porque os negativos repousam no fundo da Bahia de Todos os Santos, como atesta a pesquisadora Maria do Socorro Carvalho em um dos textos que integram o livreto de apresentação da caixa. Por que muitos filmes foram jogados ao mar? Simples: porque se temiam incêndios causados pela combustão espontânea das cópias em nitrato. E assim, o tesouro, em boa parte, perdeu-se para sempre.

Do que sobrou, temos excelente amostragem do cinema baiano moderno (pós anos 50) nesta caixa composta de 12 DVDs com 30 filmes entre curtas, médias e longas-metragens da produção baiana.

Impossível dar conta de tamanha massa de filmes. Uma ideia seria colocá-los em ordem cronológica. Mas talvez seja mais interessante algum outro tipo de recorte. Por exemplo, lembrar que Bahia de Todos os Santos (Trigueirinho Neto, 1960), Barravento (Glauber Rocha 1960-62) e A Grande Feira (Roberto Pires, 1961) situam-se na própria fermentação do que viria a ser o Cinema Novo. São filmes de preocupação popular – isto é, colocam o povo como protagonista – e referem-se a dramas alimentares, por assim dizer. Por isso, lembra Maria do Socorro, compõem a chamada “trilogia da fome”, quando o cinema brasileiro acordava para esse tipo de realidade. Essa tríade contempla, acima de tudo, o primeiro trabalho em longa-metragem de Glauber Rocha, a expressão máxima do Cinema Novo.

De Glauber, ainda temos o curioso (e muito belo) curta O Pátio (1956), de viés algo formalista se comparado às opções posteriores do cineasta. A ele, como contraponto, se agregam registros da Bahia profunda como Vadiação (Alexandre Robbato Filho, 1954) e Um Dia na Rampa (Luis Paulino dos Santos, 1960). Imagens que fazem rima com o mais recente Capeta Carybé, de Agnaldo “Siri” Azevedo (1996), sobre o artista plástico que se tornou o mais baiano de todos os argentinos. Enfim, a Bahia dos saveiros, dos castelos, dos capoeiras, da Cidade Baixa.

A Bahia é também ponta de lança de um barroquismo que se expressa de várias maneiras. Por exemplo, na exasperação e no deboche do cinema dito “marginal”, em obras fundamentais como Caveira My Friend (Álvaro Guimarães, 1970), Meteorango Kid (André Luis Oliveira, 1969) e O Super-Outro (Edgard Navarro, 1989).

Há muito talento nesses filmes. Talento demais.

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