Celibidache e o tempo
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Celibidache e o tempo

Maestro não apenas alongava os andamentos mas transformava o tempo em uma experiência concreta, que jogava a plateia num sonho feliz

Luiz Zanin Oricchio

04 Setembro 2018 | 15h00

Eu poderia estar falando do incêndio do Museu Nacional e de como ele simboliza não apenas o descaso, mas o desprezo pela cultura em nosso país.

Eu poderia estar lamentando a quadrilha que assaltou o poder e agora encaminha sua permanência com o beneplácito de instâncias que, em tese, deveriam ser imparciais.

Eu poderia estar lamentando a sorte de ter nascido no Brasil, mas como já tenho suficiente experiência internacional não alimento fantasias de morar em Lisboa ou Miami. Vou ficando por aqui mesmo.

Eu poderia estar chorando as pitangas, como outros milhões de brasileiros, muito menos afortunados do que eu e com muito mais razões de queixar e se revoltar.

Eu poderia, mas, por algum motivo, resolvi falar de outra coisa. Ou outro alguém.

Outro dia, li na Folha um depoimento de Bia Lessa sobre como o maestro romeno Sergiu Celibidache (1912-1996) havia mudado  a sua (dela) vida. Me identifiquei de cara com a Bia. Comigo aconteceu a mesma coisa, muitos anos atrás.

Celibidache veio ao Brasil em 1993 e fui incumbido de entrevistá-lo para o Estadão. No hotel onde ele estava hospedado me informaram que não desceria para a entrevista. Idoso, precisava poupar energia para os concertos e não desperdiçá-la com jornalistas.

Fiquei decepcionado, mas “cumpri” a pauta por outro caminho. Entrevistei um músico e o diretor artístico da Filarmônica de Munique, que iria se apresentar sob a batuta do maestro. E assim escrevi a matéria, que você pode ver aí, caso interesse.

Fui ao concerto. E, como tinha dois ingressos, levei comigo meu velho pai.

Papai era um admirador dos clássicos, ouvinte constante, e foi quem inculcou em mim o gosto pela grande música. Uma lembrança feliz de infância são as idas matinais ao Theatro Municipal para os Concertos da Juventude, aos domingos.

Tenho ainda memórias proustianas com o “cheiro” da cidade inusualmente vazia que percorríamos naqueles domingos. Descíamos do ônibus na Praça da Sé e caminhávamos até o teatro atravessando a Rua Direita e o Viaduto do Chá. Lembro também daquela sensação indefinível dos músicos da orquestra afinando seus instrumentos antes da entrada do maestro. Sweet memories.

O concerto daquela noite foi estupendo. Celibidache reinterpretava a partitura, alongando andamentos e, mais do que isso, fazendo do tempo uma singular experiência concreta. Mergulhava a audiência nesse espaço-tempo à parte, nessa bolha cósmica da qual ressurgíamos como saídos de um sonho feliz.

No repertório havia os carros-chefe de sempre, Mozart, Brahms e Beethoven, mas parecia-nos ouvir outra música, nova em folha, que não conhecíamos.

No final, olhei para meu pai e vi que estava profundamente emocionado. Também fiquei.

Foi a última vez que fomos juntos a um concerto.

 

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